#CaracolNaMadeira - Parte 2 (Desabafo)

Criei esta hashtag para permitir quer a mim, quer a vocês, irem seguindo as coisas que se vão passando na minha preparação para a Madeira e nestes últimos tempos, com os meus dias a serem praticamente focados nesta preparação, tem-me surgido na mente um problema que já foi abordado por algumas pessoas nas redes sociais mas que eu queria aprofundar um pouco mais... Vamos a isso:
A Ilha da Madeira tem características que são impossíveis de igualar aqui pelo nosso Continente... Os desníveis, o tipo de terreno, as condições climatéricas, tudo ganha contornos diferentes em relação às nossas típicas condições! Acontece que em alguns sítios podemos simular algumas delas, temos serras com desníveis semelhantes que provavelmente não têm o mesmo tipo de piso, mas que já servem para preparar as pernas para as subidas intermináveis, para as escadas e para as descidas tão longas quanto as descidas... Temos serras com pisos semelhantes, não têm o mesmo desnível mas dá para preparar os pés ao percorrer algumas horas sobre esses trilhos! Mas para fazer este tipo de treinos existem duas condicionantes que vão convergir praticamente numa só:

1 - Deslocações: Para quem se dedica a isto de forma quase "semi profissional" (treino com alta intensidade, independentemente das condições que se tem, tendo em vista os resultados desportivos), precisa obrigatoriamente de percorrer trilhos diferentes de tempos a tempos... Treinar todas as semanas nos mesmos sítios leva a uma habituação do corpo que leva a que este se adapte e acabe por estagnar! Como se costuma dizer, temos que tirar o nosso corpo da zona de conforto, temos que lhe dar o desconhecido para que ele se possa deparar com novas dificuldades e se vá adaptando, ou por outras palavras, vá evoluindo. Acontece que para lhe proporcionarmos todo esse novo "paradigma" temos que fazer deslocações grandes, temos que dispor de tempo quer para as deslocações quer para o treino em si e temos que abdicar de muitas coisas para podermos cumprir com tudo o que está planeado!

Serra de Sintra

Serra da Lousã

Serra dos Candeeiros

2 - Material: Por ano percorro mais de 5 milhares de quilómetros. E não sou de longe das pessoas que mais faço! São muitas horas a treinar, muitos quilómetros percorridos e naturalmente, o material que se usa vai-se desgastando e vai precisando de substituição! Comecemos pelos ponto principal: segundo os especialistas, as sapatilhas devem ser trocadas a cada 1000kms... Ora, não é preciso fazer muitas contas para perceber que seriam precisos 5 pares de sapatilhas por ano! Para quem se dedica a isto de "corpo e alma" as sapatilhas são das coisas mais importantes, precisamos de conforto, de boa aderência, de ajustabilidade e não são quaisquer sapatilhas que cumprem esses requisitos... Para mim é óbvio que esses 1000kms não têm que ser religiosamente cumpridos mas a verdade é que com o desgaste natural vejo-me forçado a comprar cerca de 3 pares de sapatilhas por ano, o que leva a um desgaste financeiro enorme! Depois temos os calções, mochilas, meias e no meu caso, perneiras... São tudo produtos que duram para uma época, mais ou menos! São tantos quilómetros que até aquele material "top" acaba por se desgastar e ao fim de um ano de utilização deixam de garantir todo o conforto que conferiam e se há coisa que nunca podemos descurar numa prova de 100kms é o conforto! E lá vem nova troca! Isto repete-se ano após ano... É uma renovação constante de material que não nos permite grandes jogadas: se o material não está em condições tem obrigatoriamente que ser trocado! 

Tudo isto para quê? Bem, tudo isto para o tal desabafo que falei no título do post... Em Portugal temos muita mania de nos "vender" a troco de um simples desconto ou de uma autêntica "troca de favores"! Fazem um ligeiro desconto no material pedindo como moeda de troca uma review ou uma imagem nas redes sociais e nós, como o dinheiro não abunda na nossa população, acabamos por aceder e lá vamos fazer a publicidade praticamente gratuita à referida loja! E o mais grave nem é isto... O mais grave é fazerem-nos pensar que estamos a ser "patrocinados" e que nos estão a fazer um grande favor! Em Portugal contam-se pelos dedos das mãos os atletas que são realmente patrocinados... Aqueles que quando precisam de material, pedem e recebem! Independentemente se pagam muito pouco, se é oferecido ou se demora mais ou menos a chegar! O que eles querem, vem e eles utilizam! O esquema é simples e eficaz! E para aqueles que têm a sorte de estar integrados num bom projeto, até para o primeiro ponto em que falei, existem ajudas; Mas mesmo não existindo ajudas, a folga que têm com o material recebido, permite-lhes terem alguma liberdade financeira para poderem agir desse modo.

Queria deixar bem claro que não me estou a queixar de passadas parcerias que tenha tido... Estou apenas a relatar um facto que atualmente se tem vindo a tornar um hábito em Portugal e que em nada beneficia o nosso país no que ao desenvolvimento competitivo diz respeito! Andamos aqui todos a pensar que somos grande atletas e que temos grandes apoios, quando na verdade temos marcas/lojas que nos dão acesso a alguns descontos, em alguns produtos, em produtos escolhidos especificamente pela loja e na prática, não estamos mais que a fazer publicidade gratuita a essas marcas/lojas! Que se mudem mentalidades e este desenvolvimento que temos assistido na nossa modalidade pode ser ainda maior! 

Comentários

  1. Bem verdade... Eu bem tento explorar para ver se há algum apoio que vale a pena, mas os bons patrocínios já estão ocupados por atletas (uns que merecem outros que nem entendo...) e os outros que tento abordar por vezes dão-me com cada resposta e/ou proposta que eu nem percebo se aquelas pessoas sabem realmente o que fazemos ou o que é apoiar um atleta. Só se interessam pela parte que lhes favorece a eles e pronto...

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    1. Sim, esse é um problema, quando a parte de lá pensa que só eles é que podem ganhar com o negócio... Um negócio só é bom quando é bom para os dois 😉

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