18ª Paragem 2016: Perfeito! (Ou A Meca do Trail - Parte 2)

Grande Trail Serra D'Arga - Ultra Trail

Distância: 57.20kms
Tempo: 05:21:11
Classificação Geral: 2º Classificado
Classificação Escalão: 2º Classificado SenM

A "história" deste post do Caracol Apressado vai começar com o final do post anterior: o quilómetro vertical do GTSA! Como disse nesse post, a prova não foi perfeita, mas deu para sentir que o corpo estava pronto para andar no limite... Sabia pela experiência do ano anterior que a tarde e noite desse dia seriam fundamentais para que o ultra trail corresse bem! Começei logo após tirar a foto de família no topo da Senhora do Minho... Tomei a proteína e segui para a casa onde a minha equipa estava alojada, ou como lhe chamei anteriormente a fortaleza do Caracol... Aproveitei para junto com os elementos da equipa que tinham feito o quilómetro vertical pôr as pernas de molho (em água gelada) para acelerar a recuperação!

Foto de família/equipa após o Quilómetro Vertical
Não havia muito a fazer durante a tarde, descansar era o mais importante e a alimentação não poderia ser esquecida... Os elementos que faziam parte da "equipa de apoio" foram auxiliando nessas tarefas e os atletas apenas tinham que estar preocupados com o dia seguinte! Ia repetindo na minha cabeça a prova do ano anterior. Sabia que iria ter partes diferentes, por causa dos fogos que assolaram a região, tornando-a negra mas sem lhe tirar a beleza paisagística que tanto caracteriza a Serra D'Arga, mas pelo menos ia relembrando excertos do percurso onde iria passar no domingo! À noite chegou a altura de ir deitar e descansar para a enorme empreitada que seriam os 53kms (achava eu) da prova.

Quando acordei o sol ainda não tinha nascido... Tal como na manhã do dia anterior aquela casa respirava trail! O pessoal acordava a falar nisso, e já se notava o semblante nervoso do pessoal que ia fazer uma das provas mais longas do ano (no meu caso foi mesmo a mais longa). Não quero estar a dizer pormenorizadamente o que foi o meu pequeno almoço, mas há dois elementos que tenho que referir, pela importância que tiveram ao longo da prova: Um pastel de nata quente (acabado de sair do forno) e um café... Seguidinhos! Após o pequeno almoço estava na altura de reunir a "família" e seguir para Dem, local de partida do Grande Trail Serra D'Arga - Ultra Trail... Mais umas fotos para recordação e seguimos para a linha de partida...

Equipa pronta para seguir para a linha de partida
Equipa de apoio pronta para prestar auxílio durante a prova





























A parte inicial da prova era muito semelhante ao ano passado... Uma volta pela aldeia para esticar o pelotão que se tornou muito efetiva! Quando voltei a passar no pórtico da partida já seguia um grupo na frente (com alguns atletas dos 53kms e outros dos 33kms) e seguia eu, já sozinho, na perseguição a esse grupo! Tinha na cabeça a minha parte inicial do ano anterior... As pernas estavam muito pesadas e sentia que o corpo não queria arrancar para a prova! Este ano, apesar de a volta inicial ser muito curta deu bem para perceber que as coisas estavam diferentes: as pernas queriam subir, não era preciso fazer força para travar a descer, parecia que o corpo estava "reciclado"! 

Passagem pelo pórtico após a primeira volta

Quando passei no pórtico, lá estava a minha equipa a bater palmas e nesse grupo estava o meu pai que me ia dizendo para ter calma, não me meter em ritmos loucos e ir gerindo a prova... Admito que estava ligeiramente eufórico, nunca tinha sentido o corpo com tanta força e isso deixou-me animado mas fiquei-me por um modesto "Eu estou a ir com calma" e segui! Seguia-se uma fase da prova sempre a subir... Não era uma subida muito inclinada, mas era muito constante! Passei alguns atletas que sabia serem dos 53kms e fui sempre mantendo a distância para o grupo da frente... Durante a subida o Pedro Ribeiro foi-se aproximando e ainda durante a subida juntou-se a mim! Íamos metendo ritmos fortes praticamente à vez e continuava com a sensação de estar com muita força, sentia-me mesmo muito bem mas tentava ao máximo conter a euforia, porque ainda faltavam muitos quilómetros e este ano ainda não tinha feito provas tão grandes. Acabámos a primeira subida e íamos trocando de posições com alguns atletas da pequena que não estavam a subir como nós mas que aproveitavam as descidas para embalarem e voltavam a passar por nós... Foi assim que chegámos ao primeiro abastecimento, a meio da segunda subida, após mais uma dessas ultrapassagens e como a prova tinha "acabado de começar" não parámos! A equipa de apoio lá estava para nos perguntar se estava tudo bem, mas a coisa estava a correr tão bem que um levantar de polegar foi suficiente.

Descida (muito ligeira) após o primeiro abastecimento

A seguir ao abastecimento tínhamos uma ligeira subida para logo continuarmos a subir... As subidas nesta prova, pelo menos durante a primeira metade da prova, eram muito ao meu jeito, eram todas corríveis, houvesse pernas para isso e a tecnicidade das descidas não era muito elevada, fazendo com que me sentisse em "casa"! A única questão era a duração das subidas... No nosso (Caracol Trail Team) laboratório de treinos as maiores subidas têm no máximo 3 quilómetros, sendo que a exceção não é muito "transitável" tendo 5 quilómetros de extensão! Apesar das diferenças treino/prova estava a conseguir fazer tudo a correr e mesmo tentando conter a "euforia" tinha noção que estava a ir acima das minhas capacidades. Após a segunda subida da prova tínhamos uma descida para uma aldeia onde estava novamente a minha equipa de apoio e é aqui que entra a história do pequeno almoço... 
Passagem pela equipa de apoio com o Pedro
O pastel de nata e o café deram-me a volta à barriga e muito pouco depois dos 14 quilómetros tive que fazer a primeira "paragem técnica". Com esta paragem perdi a "boleia" do Pedro e passaram por mim 4 atletas! Não tinha noção se eram todos da prova grande mas sabia qual era o objetivo, tinha que voltar a apanhar o Pedro e voltar a apanhar a boleia! Arranquei para os quilómetros seguintes com o foco nesse pensamento... A descida que se seguia foi feita a solo, não entrando em aventuras para não estragar o bem que me estava a sentir e assim que voltou a subir (após passar uma linha de água) vejo o grupo todo que me passou, em linha, a chegar ao ponto mais alto que conseguia ver; Tentei fazer o máximo a correr e estava a aproximar-me de parte do grupo... A subida tinha deixado marcas e o grupo já seguia fragmentado! Logo após a subida tínhamos uma ligeira descida em direção a um abastecimento onde aproveitei para encher os flasks de água e seguir viagem! Logo na subida que se seguia apanho "a cauda" do grupo que ia à minha frente... De uma assentada foram 4 atletas e logo na descida seguinte aproximei-me e ultrapassei os restantes atletas com exceção do Pedro e de outro que se tinham destacado do grupo! 

Na perseguição ao duo que estava à minha frente

Perto dos 21 quilómetros volto a encontrar a equipa de apoio do Caracol, digo ao meu pai: "Está a ser a prova da minha vida... Se não fosse aquela paragem... Estou a sentir-me como nunca"! Muito pouco tempo depois da fotografia anterior ser tirada, consegui alcançar o Pedro e metemos logo um ritmo alto, até porque era ligeiramente a subir e estávamos a ser dos poucos a correr com estas inclinações. Ganhámos algum avanço e fizemos os quilómetros seguintes com a noção de que estaríamos perto do top 5 mas sem conseguir dar certezas... A subida que se seguia era mais uma das muito longas que marcavam esta prova; A ascensão à Senhora do Minho era feita de uma forma bem diferente do ano anterior, numa subida mais longa mas também mais acessível do que o quase quilómetro vertical do ano anterior! No início da subida, eu e o Pedro apanhámos o Diogo Baena e outro atleta dos 30kms. Trocámos algumas palavras e voltámos a meter o nosso ritmo, ganhando algum avanço aos atletas que nos seguiam... A subida foi feita praticamente toda a correr e em menos de nada vimos o topo da nossa senhora do Minho ao longe, local que marcava o fim da última subida da prova dos 33kms! Foi nesse mesmo local que esta prova demonstrou o porquê de estar no meu coração e na lista de provas a fazer sempre que houver oportunidade... Muita gente a aplaudir, até dava vontade de correr um bocadinho mais rápido, se não faltassem cerca de 25kms! Após a fase da subida entrávamos numa zona de planalto que já tínhamos feito no ano anterior à qual se seguia uma descida muito longa até ao jardim que simbolizava a meta dos 33kms e o início da prova a "solo" para os dos 53kms... Na fase final da zona de planalto formou-se um grupo de 4 atletas dos 53kms: eu, o Pedro, o Nuno Fernandes e o Francisco Fernandes! Como a descida era muito longa e tinha níveis de tecnicidade diferentes ao longo da sua extensão as posições entre os 4 iam alterando mas chegámos todos ao jardim com muito pouca diferença entre nós... 

O Francisco acabou por sair na frente do grupo com algum avanço, tendo eu seguido com o resto dos elementos após aproveitarmos o abastecimento para encher flasks e comer qualquer coisa! Sabia que seria a partir dali que a prova começava a "contar"... Era a partir daquele abastecimento que as quebras iam começar a surgir, que era a partir daquele abastecimento que a frente da prova se iria alterar e que era a partir dali que seria mais fácil controlar quem estava à nossa frente e assim foi... Quando saí do abastecimento o meu pai diz-me que aquele grupo ia entre a 3ª e a 6ª posição, para manter a calma e continuar a fazer a minha prova que estava a ser praticamente perfeito! Eu respondo-lhe novamente que estava com força como nunca tive e sigo caminho! Em menos de 1 quilómetro voltamos a ficar os 4 juntos num grupo mas o ritmo não ia muito alto... Aproveitei o descanso do abastecimento e meti um ritmo mais alto para ver quem vinha atrás! No momento em que acelerei fiquei mesmo sozinho, encontrando-me nessa altura na 3ª posição, mas ao longo da descida o Pedro e o Nuno acabaram por voltar a colar, estando agora a luta reduzida a 3! O corpo continuava a responder muito bem, mesmo com as alterações de ritmo não me sentia a entrar em grande quebra e isso sentiu-se quando voltamos a encontrar uma subida... Fui o único a fazê-la integralmente a correr e ganhei algum espaço, estava novamente isolado no 3º lugar! Foi nesta posição que cheguei ao último abastecimento antes da zona do rio, local onde estava o André Rodrigues, o 2º classificado até essa altura! 

Não demorei muito tempo no abastecimento, assim que pude saí de lá e fui o primeiro a sair do abastecimento e logo a seguir veio o Pedro, com um ligeiro atraso! Nesta altura estávamos dois caracóis nos 3 primeiros e a 20kms do fim, a corrida não podia estar a ser mais perfeita! Quando saí do abastecimento senti novamente os efeitos do pastel de nata e do café... Não queria perder tempo mas as dores de barriga estavam a limitar-me o rendimento! Foi altura da segunda paragem técnica! Quando o Pedro apareceu no caminho eu estava a voltar a arrancar e fomos juntos durante alguns metros!

Numa nova subida voltei a fazer tudo a correr e disse ao Pedro que ia seguir, ia ver até onde ia o corpo! Estava no segundo lugar de uma das provas mais míticas do país e isso estava a dar-me ainda mais ânimo! A zona seguinte, a zona do rio era uma zona que tínhamos percorrido no ano anterior, mas que por algum motivo que ainda não percebi qual, não me lembrava! Assim que começo a fazer os trilhos na margem do rio lembro-me perfeitamente dessa zona e lembro-me do sofrimento que é fazê-la... 
Passagem de estrada entre os trilhos do rio onde estava o Jorge Serrazina, autor da foto

Subir escarpas e descer escarpas, andar num caminho sempre ao lado do rio que tanto permitia andar a bom ritmo como a seguir tínhamos uma subida tipo escalada mesmo pelo meio da "cascata"! A zona é lindíssima mas para quem já leva 40 quilómetros na pernas acaba por não apreciar tanto a paisagem como devia... Neste sobe e desce constante o corpo começou a quebrar, a alternância constante de ritmos estava a deixar-me ligeiramente em baixo e por isso ia olhando para trás, mas felizmente continuava sem ver ninguém da prova grande (começamos a apanhar alguns atletas das provas mais pequenas)! Parecia que a minha quebra não estava a resultar em perca de tempo e foi assim que cheguei ao fim da zona do rio, com o corpo a quebrar ligeiramente mas com a mente a sentir a meta cada vez mais perto! No final da zona do rio lá estava novamente a equipa de apoio, aproveitei para encher o flask numas torneira que lá estavam para o efeito e falo com o meu pai... Disse-lhe que estava a quebrar, mas não muito, que ia tentar manter o ritmo até ali!

Receber conselhos do treinador

O que disse ao meu pai era mesmo a realidade, embora me sentisse cansado sabia que a prova estava a acabar e quem viesse de trás tinha que estar muito melhor que eu para me passar, não podia "fraquejar" agora! Após uma passagem por um parque de merendas onde uma família ia dando apoio aos atletas, iniciávamos a subida final... Essa tinha-a mesmo guardada na memória e sabia que a tinha que gerir muito bem porque mesmo quando parecia que ela ia acabar, ela subia e subia e subia! Ia passando o pessoal da pequena e iam dando força (obrigado a todos, mesmo aqueles que não ia tendo força para responder)! Passei até por uma senhora que me perguntou o meu nome e quando o disse ela disse que bem parecia que me conhecia, que era um dos futuros "valores" do trail! Não sei quem é a senhora mas gostava de lhe agradecer aqui pelo blogue porque são frases como essa que vão dando força mesmo que pareça que já não existe força no nosso corpo! Mantive sempre o ritmo o mais alto que conseguia, mesmo a subir fazia mais de 50% a correr e quando tinha que meter a passo tentava dar as passadas mais largas que conseguia! Cheguei ao último abastecimento da prova, enchi os flasks pela última vez e ataquei a subida que no ano passado me deitou abaixo psicologicamente (num caminho onde parece que vai parar de subir, as fitas indicam um caminho para a esquerda, muito inclinado, pelo meio de rochas)! Desta vez já ia consciencializado e tentei correr durante a subida mas já fiz bem menos de 50% a correr... Passei pelo Ricardo Silva durante essa subida, ele aproveitou para fazer um treino e ia também dando força e quão bom é ouvir uma palavra de força vinda desses campeões! Foi assim que atingi o topo da subida e sabia que daí em diante era sempre a descer! 

O relógio marcava quase 50 quilómetros o que significava que faltariam cerca de 3! Não podia estar mais enganado e como aos 52 não havia meio de ver Dem, perguntei a um atleta que vinha em sentido contrário buscar atletas que ainda estavam na prova pequena, quanto faltava... A resposta foi cerca de 4 quilómetros e a cabeça foi completamente abaixo! A subida anterior tinha-me deixado muito moído e 4 quilómetros, mesmo a descer, significariam mais 20' de prova! Tão depressa como fui abaixo tive que me meter em cima, afinal de contas eram "só" mais 20 minutos de prova e até eram a descer, portanto não podia abrandar... Segui sempre num ritmo perto dos 4'15'' por quilómetro e esperei que quem viesse atrás não viesse mais rápido! Já perto dos 57 quilómetros começo a ver a aldeia de Dem, olho para trás, não vem ninguém mas mesmo assim o corpo queria acelerar... Estava a algumas centenas de metros de acabar aquela que para mim é a "Meca" do Trail em Portugal na segunda posição e parecia que estava a viver um sonho! 

Quando entro na reta da meta vejo o meu pai e a minha irmã a aguardar por mim, assim que o meu pai percebe que me estou a aproximar cerra os punhos como se de uma vitória pessoal se tratasse! Cruzo finalmente a linha de meta, cerro os punhos, solto um "toma" por todo o sofrimento que tive nos últimos quilómetros da prova e abracei aquele que é um dos principais responsáveis por todo o meu sucesso! Foram uns valentes segundos em que estive abraçado ao meu pai, com a lágrima a escorrer no canto do olho a aliviar todos aqueles sentimentos que fui sentindo ao longo da prova e que finalmente tinha terminado, com um "perfeito" segundo lugar! 

O "toma" antes de abraçar o meu pai!
Os fotógrafos não estavam à espera da minha chegada e tive que repetir aquele momento, a pedido do Joca, o speaker de serviço, para poder ficar registado pelas objetivas a minha chegada a Dem na segunda posição! 

Após a minha chegada tive toda a equipa de apoio de volta de mim para que nada me faltasse! Muito obrigado a todos! O Pedro acabou por perder o 3º lugar durante a descida final, tendo ficado no 4º lugar e as contas para a equipa começavam a ser feitas! O Crispim tinha que chegar perto dos 35 primeiros, e cumpriu plenamente a tarefa ao ter terminado na 29ª posição... Tudo somado eram 35 pontos e o primeiro lugar por equipas era nosso! O caracol conseguia assim a vitória coletiva no Grande Trail da Serra D'Arga à frente de duas das melhores equipas de Portugal, o EDV e o Coimbra Trail Running, muitos parabéns a ambas! Ainda antes da entrega de prémios chegaram os restantes caracóis que estavam em prova, o João Martins e o João Farinha e a prova estava assim concluída para o Caracol Trail Team!

Pódio dos dez primeiros da geral 
Pódio das equipas com EDV e CTR


























Em relação à prova, agradecer a enorme organização do Carlos Sá e restante equipa, tendo proporcionado aos atletas um enorme evento de trail! Um evento que roça a perfeição com trilhos fantásticos (mesmo com as áreas ardidas a prova continua com paisagens belíssimas), sinalização perfeita, ótimos abastecimentos, pessoas simpáticas e acessíveis nos abastecimentos, pessoas ao longo da prova a apoiarem os atletas tendo tido apenas o lapso dos quilómetros no fim que provavelmente se deveu à mudança dos percursos no último mês antes da prova! Um muito obrigado a todos, foi um fim de semana perfeito!!!

A nossa equipa com o principal mentor do Grande Trail Serra D'Arga


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