4ª Paragem 2017: Um completo desastre!

Permitam-me um pequeno aparte antes de começar o texto: devo ter um problema sério com esta terra. Por dois anos seguidos vou começar lá a época e as coisas correm mal! O ano passado parecia que estava cansado, que não conseguia chegar ao "máximo" mas este ano foi muito pior que isso, foi um completo desastre... Esperemos que à terceira seja de vez.

Trilhos dos Reis 2017

Tempo: 05:39:56
Distância: 43.33kms
Classificação Geral: 85° Classificado
Classificação Escalão: 43° SenM

A semana e meia que tinha parado por causa do tornozelo já estava para trás e a vontade era só de trabalhar para recuperar o tempo perdido. As duas semanas que antecederam a prova tinham corrido muito bem a nível de treinos e apenas no domingo, no dia de ir à Serra tive verdadeiras preocupações com o pé... Como este se portou bem, continuei a carga e cheguei a sexta feira a sentir-me com força, parecia que o corpo estava pronto, de tal maneira que disse ao meu pai que achava que podia fazer uma boa prova, tentando sair forte e depois gerir como fiz durante todo o 2016. O treino (possível) estava lá, o descanso foi o suficiente e a alimentação também foi minimamente adequada, estava pronto para a prova.

Na manhã do dia 15 seguimos para Portalegre bem cedo, chegamos ao pavilhão, recolhemos os dorsais que já estavam levantados pelo Telmo Silva e fomos equipar... O tempo ia passando, as minhas expectativas iam aumentando e o nervoso miudinho estava a atacar forte, o que era bom, já não sentia isto desde o Trail do Zêzere e os resultados aí foram muito positivos. Para este nervosismo contribuía também a presença dos melhores atletas nacionais, o campeão e vice campeão nacional de ultra trail, André Rodrigues e Ricardo Silva e mais alguns dos principais candidatos ao título deste ano, motivos mais do que suficientes para não querer fazer "má figura"... Segui para o pavilhão e estava na hora de seguir para a linha de partida!

Cumprimentos habituais, palestra do José Presado, obreiro principal deste grande evento, e após contagem de 15 até 0 saímos para a primeira prova do Campeonato Nacional de Ultra Trail. O ritmo inicial não foi exagerado, formou-se logo o grupo dos "favoritos" e eu estava a acompanhar este grupo... Passámos pelo posto da GNR tal como no ano anterior e de seguida iniciámos a primeira subida da prova, praticamente toda feita em alcatrão e onde o grupo da frente seguia a ritmo elevado e eu, pelo pouco treino que tinha fui naturalmente descolando. Tinha noção que embora me sentisse bem, não devia dar para aqueles ritmos e tinha que gerir a prova de maneira a ter forças para toda a prova... A meio da subida passa o Pedro Ribeiro, ainda tento ir com ele, mas fiquei na mesma para trás, o que era normal, porque a quebra dele no treino foi inferior à minha, tinha que meter o meu ritmo e seguir.

Primeira subida da prova, aqui já ia atrás do Pedro
Assim que acabava a subida entrávamos nos primeiros trilhos da prova e por estar com medo do pé fui metendo um bocado de travão ao ritmo... Os atletas iam passando por mim com esse diminuir de ritmo mas era algo que eu poderia recuperar no resto da prova. A altimetria da prova ia-se mostrando, mais de metade dos 2000mts de D+ anunciado eram feitos nos primeiros 19kms e isso obrigava a uma gestão ainda maior do esforço nas subidas e nas respetivas descidas... 


Momentos antes de ser ultrapassado pelo Francisco Monte, parabéns pela prova!

Quando passei aos 15km os atletas deixaram de passar, estava a sentir-me minimamente bem e sabia que vinham aí duas subidas íngremes e onde podia aproveitar para meter um ritmo mais forte... Assim que se iniciou a primeira ascenção às antenas de S. Mamede consigo passar parte do grupo que ia à minha frente e a meio da subida já só vinha mesmo o Omar Garcia atrás de mim! As sensações a subir eram boas, a descer consegui só ser passado pelo Omar e na subida seguinte, depois de passar pelo meu pai e dizer que estava a voltar a ter força, consigo passar dois elementos do grupo que seguia à frente e colar-me ao que restava desse grupo... Os ânimos ficavam mais animados, achei que a partir dali iria fazer uma segunda metade mais forte do que a primeira e poderia recuperar posições, ou pelo menos, era assim que esperava.


Após uma das subidas onde ainda achava que me sentia bem
Após essa segunda subida às antenas de S. Mamede a prova entrava numa toada menos inclinada e inicialmente não muito técnica e foi aqui que começei a sentir que as coisas não estavam bem... Os atletas que tinha passado na subida iam passando a um ritmo que para mim era "estratosférico"; Os meus 4'30''/km pareciam-me fortes, parecia que estava a andar bem mas eles iam passando e eu ficava pregado ao chão. Ainda assim tentei manter-me positivo, vinha aí uma subida logo a seguir e poderia aproveitar para recuperar alguns lugares, mas foi nesta subida que percebi que não era mesmo o meu dia, já nem a subir me sentia bem, continuava a ser ultrapassado e a não conseguir meter ritmos altos. Quem me conhece ia dando umas palavras de apoio (obrigado a todos) e eu limitava-me a agradecer e a manter o ritmo lento. Logo após esta subida (a última longa da prova) seguia-se uma descida mais técnica onde fiz quase tudo com o rabo no chão, para não correr o risco de aleijar o pé de novo. Foi durante esta descida que passa por mim o Carlos Mendes, pergunta se está tudo bem, digo-lhe que não me sinto com forças, e digo-lhe para ele seguir... Com a passagem do Carlos era já o 4º elemento da equipa (o Gaio tinha passado durante a descida após a 2ª subida às antenas) e já não estava a contar para a classificação coletiva. Não sei se foi este o momento em que o cérebro desligou mas a partir deste momento o ritmo passou de lento a parado, o corpo não queria correr, seguia passo atrás de passo a forçar o corpo a ir mais rápido mas parecia que ia completamente no limite. Felizmente, nem tudo pode correr mal, durante a descida acabei por apanhar boleia do Ricardo Duarte, de Ferreira do Zêzere, companheiro de aventuras de quase toda a época passada que segundo o próprio ia tão mal como eu. Aproveitei a boleia, fomos metendo conversa e apesar de continuarmos a ir lentos, já não ía parado, obrigado Ricardo pela companhia naqueles penosos quilómetros. Volto a apanhar o meu pai ao longo do percurso, digo-lhe que não dá mesmo, que a prova competitiva para mim tinha acabado, ele soltou um "treina que isso passa" que se aplicava na perfeição à situação, a verdade é que andei a criar expectativas para esta prova durante duas semanas, quando não as podia ter criado... Aquela paragem forçada foi um retrocesso enorme na minha forma e não havia maneira de compensar. A partir desse momento restava acabar a prova e continuar a treinar.


Tração às "4" para garantir que não piorava a situação do pé
Os quilómetros que se seguiam, especificamente entre o quilómetro 33 e o 35 eram muito técnicos, num percurso denominado pela organização de carrossel, que circundava um dos ribeiros da zona e que foi um verdadeiro "calvário" para mim. A prova estava perdida, não havia necessidade de estar a estragar o pé então fiz quase tudo a passo e a prova disso é que demorei quase meia hora para fazer esses mesmos quilómetros. O Ricardo acabou por seguir, e quando saí desse trilho tentei voltar a correr... Embora não estivesse bom, nem perto disso, consegui voltar a meter um ritmo certo, de cerca de 5'/km a direito e a subir conseguia fazer troços relativamente grandes a correr. Quando a Susana Simões passou (na altura era a 5ª mulher) ainda tentei seguir com ela, mas naquela fase era muito complicado fazer as subidas todas a correr, tal como ela estava a fazer. Entre o quilómetro 38 e o 40 a prova desenrolava-se toda em terreno plano e acabei por "perseguir" o grupo que seguia à minha frente, onde estava o Ricardo e consegui mesmo colar e seguir com ele. Fizemos uma ligeira subida toda a correr, tendo ainda passado mais alguns atletas mas depois voltou a aparecer uma descida, a descida final que ia até ao pavilhão. Fui passado por praticamente todo o grupo que tinha passado anteriormente e comigo ficou o Ricardo... Não era de todo a nossa prova, só faltava mesmo cortar a linha da meta e começar a pensar na próxima prova do Campeonato, esta estava "perdida". 


Momentos antes da chegada com o Ricardo Duarte
Quando cheguei ao pavilhão estava triste, queria muito que aquela tivesse sido uma boa prova, que tivesse começado bem o campeonato e no final a única coisa positiva que trazia era mesmo ter acabado a prova. Afastei-me para um canto do pavilhão e começei a "pensar" em tudo o que tinha corrido mal, até que chegou o meu pai e me tentou animar o espírito... Foi bom ter alguém com quem desabafar, obrigado!

A nível coletivo, embora não tenha contribuído nada para isso, acabámos por fazer 5º lugar, um bom "arranque" por parte da equipa.

A nível da organização a prova teve um nível muito elevado:
  • Marcações muito boas;
  • Trilhos com desnível e também trilhos com elevado grau de tecnicidade; 
  • Abastecimentos com muita qualidade e quantidade; 
  • Uma ótima festa no pavilhão;
  • Um banquete no final da prova para repor as energias dos atletas.

Muitos parabéns aos atletas e à organização por terem tornado este evento num dos melhores trails a nível nacional. 

Comentários

  1. Não terá sido um pouco de sobrecarga devido a essas duas semanas anteriores a dar gás para recuperar o treino perdido?

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    1. Nem por isso, Vitor... Nos dois dias a seguir à prova pensei muito sobre o que aconteceu e tentei perceber qual o motivo mas foi muita coisa que correu mal. Desisti de pensar nisso e dediquei-me ao treino, para isto não acontecer outra vez ;)

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