5ª Paragem 2017: Do 8 ao 40 (2ª vitória da época)

2º Trail Run de Ourém

Tempo: 04:12:38
Distância: 44.45kms
Classificação Geral: 1º Classificado
Classificação Escalão: 1º SenM

Após os Trilhos dos Reis o corpo não reagiu da melhor maneira. O meu desempenho nessa prova foi uma machadada enorme na minha confiança e como em tudo, quando falta confiança, a vontade não é a mesma que quando estamos completamente focados no objetivo. Ainda assim, não havia tempo para grandes lamentações, só com trabalho se ultrapassam as dificuldades e foi assim que fui fazendo a recuperação da prova, a pensar nos treinos que se seguiriam. Aos poucos os treinos estavam a voltar ao normal e o corpo ia reagindo bem... Agora que olho para trás, parece-me que foi esta boa reação que fez o "clique" que estava a precisar, afinal de contas, tinha sido só uma má prova e ainda tinha muita época pela frente. E passadas duas semanas teria logo a prova seguinte, o Trail Run de Ourém, prova que o ano passado tinha corrido muito bem e onde tinha conseguido ultrapassar a também má prova do Trail Vicentino da Serra de 2016 (que este ano se passou a chamar Trilhos dos Reis). Foi com este foco que fui enfrentando os treinos diários e que fui sentindo o corpo a reagir cada vez melhor.

Fui cumprindo integralmente o plano de treinos, tive um cuidado especial na alimentação (coisa que estou a tentar melhorar) e tentei descansar ao máximo... No dia antes da prova peguei num bidon, enchi-o de água e obriguei-me a hidratar para não ter desculpas no dia da prova. Como a organização enviou os dorsais para casa (uma inovação que até me pareceu correr bem) consegui preparar tudo no dia anterior para no dia da prova ser só seguir para a prova e correr. Após a reunião habitual dos caracóis seguimos para Ourém e como fazia parte do grupo de caracóis que ia arrancar primeiro (a prova grande partia mais cedo) tratei logo de me preparar e seguir para a linha de partida.

5 caracóis prontos para enfrentar o Trail Longo
O tempo ia avançando e o nervosismo ia aumentando... Na despedida do meu pai digo-lhe que é o dia em que o pé me dói menos, que o ia testar no início da prova e que logo via como geria a prova. Após a contagem decrescente de 3 até 0 saímos para um percurso que inicialmente iria decorrer para os lados de Ourém e que na segunda metade ia entrar pelos trilhos onde a malta do caracol costuma treinar ao fim de semana, mas já lá vamos. Saí forte no início, queria deixar definitivamente os fantasmas dos reis para trás e queria estar bem colocado na frente do pelotão, pelo menos até conseguir.
Primeiros metros da prova
Após cerca de um quilómetro em alcatrão entrámos numa zona que se iria tornar numa das mais técnicas da primeira metade da prova. Pedra pequena e solta num trilho onde cabiam no máximo dois atletas lado a lado fui aproveitando a posição que tinha na frente para ir saltando de um lado para o outro para evitar recaídas no pé. Após menos de dois quilómetros a primeira subida (curta e pouco inclinada, como foi acontecendo na primeira metade da prova), meti o mesmo ritmo que tinha vindo a pôr e quando acabamos o trilho olho para trás e já só vem comigo o Sérgio Correia, da Zona Alta. O ritmo vinha alto e estávamos a andar bem mas ainda se ouvia as vozes de quem vinha a perseguir portanto não poderíamos abrandar muito o ritmo, correndo o risco de sermos apanhado e aumentar o grupo da frente. Foi assim que passámos no primeiro abastecimento, íamos com um ligeiro avanço e seguimos sem sequer parar. Nesta fase os trilhos tinham pouca tecnicidade e com ligeiras inclinações até chegarmos ao segundo abastecimento... Aproveitei o controlo de passagem feito pela organização para beber dois copos de água e voltámos a seguir antes do grupo que perseguia chegar ao abastecimento. Foi pouco depois deste abastecimento, quando estava a abrir uma barra que me desviei dois metros do trilho e percebi imediatamente o engano, avisando o Sérgio e ele seguiu logo pelo trilho correto ganhando-me uma ligeira vantagem também pelo aumento de ritmo que acabou por impor... Apesar de me sentir bem e com força, tentei não ir à queima ao aumentar de ritmo e mantive o meu certinho como estava a ser até aí, até porque a zona da serra estava a menos de 10kms e tinha que chegar aí com força, obrigatoriamente. Acabei por ficar sozinho na segunda posição sem ter noção do avanço que tinha para o segundo grupo, portanto não podia abrandar, tinha que no mínimo, manter aquilo que estava a fazer. Tinha planeado com o meu pai no dia anterior que ele estaria aos 18kms, para ir acompanhando o desenrolar da prova e eu sabia que isso coincidiria com a primeira subida mais longa da prova... Fiz quase tudo a correr e quando cheguei a uma pedreira começei a ouvir chamarem por mim, estava próximo do terceiro abastecimento.
Subida da pedreira até onde o meu pai estava à nossa espera
Quando lá cheguei acima disse que me estava a sentir bem, muito melhor que em Portalegre e que ia gerindo a prova. Ele perguntou pelo pé, disse que estava fino e segui viagem...
Conversa com o meu pai pouco antes do 3º abastecimento
A seguir a esta subida seguia-se uma mais curta mas também por pedras grandes que obrigavam a algum cuidado... Apesar de ter algum receio, acabei por não perder muito tempo e segui pelo terceiro abastecimento. A partir daqui a prova entrava numa outra toada, os desníveis eram mais longos, quer a subir quer a descer e era a partir deste momento que a prova se iria começar a decidir. Logo na primeira subida (até uma antena eólica) o corpo ressentiu-de da mudança de um percurso rápido para um mais inclinado, mas assim que o terreno voltou a ficar plano consegui logo meter um bom ritmo. Após esta subida, iniciamos um troço de ligação à zona de serra. 
Já seguia sozinho na perseguição do Sérgio
A meio desse troço passamos a poucos metros do local de partida e pouco depois fazemos uma travessia de estrada onde estava o meu pai, a minha mãe e o André à minha espera... Volto a dizer que me sentia bem e que estava confiante para a parte da serra e assim foi! Assim que entramos nessa zona, encontro logo um trilho que não conheço; Um trilho que tem tanto de belo como de duro e que me impede de fazer tudo a correr (pela enorme inclinação)... Ainda assim consigo meter um ritmo constante em que mesmo quando ando, mantenho uma boa cadência, tentando chegar-me ao Sérgio. Terminei a primeira subida e nem sinal dele, segui por um trilho já meu conhecido que ia dar à Sauna do Javali e que nos iria levar à subida mais longa da prova (Vale Garcia/Antenas). Conheço bem o Vale Garcia passei lá dezenas de vezes em 2016 e já sei praticamente onde estão todos os calhaus e onde estão os ramos ao nível dos olhos... Tentei gerir a subida da forma mais inteligente que consegui, meter um bom ritmo de corrida nas zonas menos inclinadas e manter um ritmo mais calmo/caminhada forte nas zonas mais inclinadas. Cheguei ao cimo do Vale Garcia e no abastecimento que lá se encontrava, vejo o Sérgio, aviso-o que vou seguir e digo-lhe para vir comigo. Oiço uns passos atrás de mim durante 200 metros mas depois deixo de ouvir... Como tinha dito ao meu pai, estava a sentir-me bem e queria aproveitar aquele bom momento para fazer um bom tempo entre o Vale Garcia e as Antenas... Apesar do ritmo não ir exageradamente forte, fui sempre certinho e sem quase me aperceber estava nas antenas. Estava no primeiro lugar, as sensações eram cada vez melhores e tinha que aproveitar este bom momento. Foi durante este troço que a chuva se começou a fazer sentir com mais intensidade, a Serra é sempre imprevisível e a chuva com nevoeiro poderiam dificultar a navegação aos atletas. A seguir às antenas seguimos por outro trilho que já conheço muito bem, a descida do Vale Alto. Apesar de já ter feito lá tempos muito mais rápidos, as condições meteorológicas e o receio que ainda tinha do pé obrigaram-me a seguir com alguma cautela... De qualquer maneira a confiança foi subindo ao longo da descida e o facto de não querer que quem vinha atrás colasse também ajudou a esse aumento de confiança. Quando cheguei à aldeia do Vale Alto lá estava novamente o meu pai... Digo-lhe que o mais difícil já estava, ele diz-me para ter cuidado, para não abusar nos ritmos que ainda faltava alguma prova. Eu disse-lhe que estava bem e que ia meter um ritmo forte e assim fiz. Os 3 quilómetros que se seguiam eram praticamente planos e o quilómetro e meio seguinte já era o início da última subida da prova mas nem por isso o ritmo baixou, andando sempre a rondar os 4'30''.

Ritmos dos quilómetros seguintes ao Vale Alto (À esquerda o ritmo real e à direita o ritmo ajustado à inclinação)

A prova estava mesmo a acabar e mesmo antes de entrar na zona mais complicada da última subida o primeiro sinal de alarme... A perna agarrou, como que a avisar que vinham aí cambras (o meu pai tinha avisado). Tomei logo parte da suplementação que levava e a perna começou a ficar mais aliviada e segui para um trilho maravilhoso que não conhecia na nossa Serra. Em dias de sol deve ter uma ótima vista e para um final de prova ainda era bastante dura. Obrigado à organização por nos mostrar estes ótimos trilhos! Nas zonas mais inclinadas a perna dava logo sinal mas nas zonas menos inclinadas, mesmo que algo técnicas conseguia meter um bom ritmo e assim cheguei à descida deste mesmo trilho que ia dar ao 4º abastecimento, no topo do Vale Garcia e que era também o nosso último abastecimento. Daqui para a frente só restava uma pequena subida até ao marco geodésico Goucha Larga. Daqui para a frente iniciávamos uma descida com pedra solta mas não muito técnica que nos ia levar a um single track, também a descer, que passa por cima do Parque das Pegadas dos Dinossauros. Como no último abastecimento comi um bocado de sal (mais uma vez obrigado à organização por se ter lembrado deste pormenor nos abastecimentos) consegui meter um ritmo alto em toda a descida. Quando estava a entrar na aldeia do Bairro, vejo a Maria Antonieta a puxar por mim e percebo que estou muito perto da chegada (já levava 43.5kms de prova). Pergunto-lhe quanto falta e ela diz menos de um quilómetro... Olhei para trás, vi que não vinha ninguém e respirei fundo. Parecia que os fantasmas que me assombraram o início de época estão a ir embora e que estou definitivamente a quebrar o enguiço.

Pouco antes da entrada no Bairro
Faço o último quilómetro a bom ritmo e vejo o meu pai... Sorrio para mim próprio, guardo a lágrima no canto do olho e vou a conversar com o meu pai até à meta. Estava conquistada a primeira vitória no ano civil de 2017 e a segunda da época (depois da S. Silvestre do Alqueidão da Serra). Foi uma prova onde correu praticamente tudo bem! Fiz uma boa escolha da suplementação para a prova, o equipamento ajudou a manter o corpo sempre quente (o que não vale ter um casaco 10k nestas condições) e o corpo também estava num dia sim... Agora resta treinar, tão ou mais forte que após os Trilhos dos Reis para poder estar forte nas restantes provas da época, mais especificamente nas provas dos Campeonatos Nacionais. 
Após uma ligeira espera chega o Miguel, do Trilho Perdido e logo a seguir chega o Pedro Crispim, mais um caracol que iria subir ao pódio! 
1º e 2º classificados do Trail Run de Ourém
Tinha vindo a falar com ele (Pedro), que na forma em que estava poderia perfeitamente ir ao pódio e fiquei quase tão contente como ele quando o vi chegar naquela posição, parabéns puto! 
Pódio da Geral com o Pedro Crispim
Depois chegou o Sérgio e logo a seguir chegou mais um Caracol, o Francisco Gaio que parece ser como o Vinho do Porto, quando mais velho, melhor, parabéns Gaio! 
3 primeiros caracóis após a prova
Parabéns também aos restantes caracóis que completaram esta distância e as melhoras ao caracol que a meio da prova deitou a carapaça ao chão, vais voltar ainda mais forte, Miguel!

Em relação à organização gostaria de deixar os meus sentidos parabéns por terem levantado uma prova desta envergadura, com boas marcações, ótimos abastecimentos e acima de tudo por nos terem mostrado mais alguns trilhos da nossa linda serra! Permitam-se só dois reparos a que provavelmente são alheios, mas que poderão corrigir no próximo ano: o dorsal não aguentava a chuva, tive que pôr o meu no bolso do casaco para chegar até à meta e o percurso na serra, num dia de nevoeiro, estando bem marcado, poderia ter sido reforçado ligeiramente para não deixar dúvidas. Mas sem dúvida que foi uma ótima organização, parabéns!

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