15ª Paragem 2017: Uma prova que fica para a vida!

Estrela Grande Trail

Tempo: 17:15:50
Distância: 109.5kms
Classificação Geral: 11º Classificado
Classificação Escalão: 4º SenM


A Serra da Estrela é mágica! Já a frequento desde que sou pequeno e sempre fiquei rendido ao seu esplendor. Tal como esta prova foi diferente de tudo o que já fiz até hoje, este post também vai ser diferente dos restantes! Vou saltar a "introdução" e vou direto para o dia antes da prova:

Após passar uma semana inteira a pensar, sonhar e imaginar a prova, finalmente chegou o dia de seguir para a Serra da Estrela. Juntámos uma enorme comitiva de Caracóis (os corredores e esses loucos que nos acompanham) e seguimos para Manteigas, "o coração da Serra da Estrela". Já conheço esta terra há muitos anos e sempre que lá chego arrepio-me... E desta vez não foi diferente! Olhei à minha volta, olhei diretamente para as Penhas Douradas, depois para o vale que nos encaminha para o Vale Glaciar e de seguida olhei em direção ao Vale da Ameixeira e ao Sameiro e senti o peso daquela Serra sobre mim! Aqueles eram alguns dos sítios onde iria passar no dia seguinte e não fazia a mínima ideia de como iria lá chegar
Mas o momento não era de aumentar ainda mais a ansiedade em relação à prova, seguimos para as casas que iriam ser o "centro de estágio do Caracol" para o EGT e fomos para a arena levantar os dorsais! Cheguei, levantei o meu dorsal, fiz a primeira verificação de material obrigatório e segui para a "banca" da Suunto para levantar um Suunto Spartan Ultra, uma oportunidade dada pelo facebook da Suunto, personificada pelo José Guimarães (do blogue De Sedentário a Maratonista). Trocamos alguns cumprimentos e regressamos ao Centro de Estágio para comer (sim, "esses loucos que nos acompanham" preocuparam-se com o jantar e os atletas só tiveram que sentar e comer) e seguimos rapidamente para o briefing do Armando Teixeira e restante equipa.


Um contra tempo impediu que o briefing se realizasse no Auditório de Manteigas mas rapidamente foi improvisado uma tela gigante no pavilhão onde as pessoas iriam pernoitar e alguns minutos depois da hora prevista o Armando tomou a palavra avisando que iria passar um vídeo de 2016 que iria resumir muito daquilo que teria de dizer em relação a 2017! E não podia estar mais correto, aproveitei o vídeo para "reconhecer" algumas das zonas que não tinha percorrido no ano anterior e relembrar outras que eram comuns aos dois percursos... Depois umas breves palavras do Telmo Dourado assim como as últimas achegas do Armando e finalmente chegou a hora de regressar ao "Centro de Estágio" e fazer a preparação final da prova. Configurei o meu relógio e o do Pedro Crispim (que também aproveitou a oportunidade da Suunto), preparei o material todo para o dia seguinte e estava na hora de descansar para o grande dia.

Eram 4h da manhã e o despertador toca, estava na hora dos últimos rituais antes da prova... Devido à "dureza" da prova optei por mudar o meu pequeno almoço! Em vez das torradas com café comi um prato cheio de massa e um bife preparado no dia anterior pela comitiva dos caracóis. Eu sei que não eram horas para estar a almoçar mas o desafio que se seguia assim o exigia.

"Pequeno Almoço" pré prova
Aos poucos a derradeira hora estava a chegar... O treino já estava feito à muito, o descanso também tinha sido bom e por fim a alimentação também tinha sido adequada, só faltava mesmo seguir até à arena da prova e esperar pelo momento da partida! E se esta prova foi especial em tudo, também nas fotos e nos momentos oportunos das mesmas houve um destaque especial... Em primeiro lugar uma ótima foto tirada pelo Paulo Nunes onde apareço eu e o Carlos Mendes, com o semblante "fechado". Os nervos estavam definitivamente a tomar conta de nós e o foco estava todo naqueles 109kms que iríamos percorrer! Em segundo lugar, uma foto tirada pelo Juca (ou CaracolTV) onde estou eu à conversa com um amigo de longa data, o Carlos Natividade que assim que me viu veio dar-me um forte e sentido abraço e dar os últimos conselhos para a prova, obrigado amigo! Obrigado também aos fotógrafos por eternizarem estes momentos!

Eu e o Carlos Mendes antes da partida
Últimos conselhos do amigo Carlos Natividade

Finalmente e pouco antes das 7h o Joca (speaker de serviço) chama os atletas para o controlo 0... Mostramos o dorsal e entramos na reta que iríamos atravessar horas mais tarde, para terminar a prova! Alguma animação, umas fotos da partida do Miro e após contagem decrescente do Armando Teixeira o cronómetro começou a contar, estava dada a partida para o Estrela Grande Trail. O início era em tudo semelhante à prova de 46kms do ano anterior, subir de Manteigas até às Penhas Douradas. O ritmo inicial foi baixo, a jornada antevia-se longa e ninguém queria fazer aqueles arranques usuais das provas mais curtas... O pessoal ia falando e rindo até que inicia realmente a primeira subida! Uma parede em paralelo que nos levaria aos S's que marcam a subida até às Penhas Douradas. Tal como disse antes não queria arriscar demais, sentia-me em condições de fazer praticamente a subida toda a correr, mesmo que a um passo lento mas optei por ir fazendo partes a correr e partes a andar... Vamos fazendo uma fila de atletas ao longo da subida e chego ao primeiro cruzamento com a estrada (cerca de meio da subida) em 5º lugar! Queria fazer a subida toda a um ritmo constante e fui conseguindo, a questão é que houve vários atletas que fizeram de trás para a frente e acabei por chegar ao topo da subida num grupo de 3, o Ezequiel Lobo, o Paulo Lopes e eu (ia a fechar o grupo, em 8º lugar) e assim seguimos até ao primeiro abastecimento, no Vale Rossim... Digo ao meu pai que me sinto muito bem, que apesar da subida ser dura não sentia muito o peso das pernas e isso só podia ser bom sinal. Como um bocado de banana e sigo para mais um troço conhecido, até à garganta de Loriga.

Foto do Miro Cerqueira (muito obrigado por esta obra de arte) antes do Vale Rossim
O que se seguia era um falso plano entre o Vale Rossim e a Garganta de Loriga... Fui o segundo a sair do abastecimento mas atrás de mim veio logo um grupo enorme! Enquanto o percurso era mais a subir (a fase inicial) ia ganhando algum terreno, estava a sentir-me muito bem e queria aproveitar esse "balanço" mas o terreno acabou por entrar numa fase mais plana (é a partir daqui que se vê a torre) e o grupo voltou a formar-se, de tal maneira que quando olhei para trás não via o último elemento... A fase final volta a subir ligeiramente e volto a ganhar um muito ligeiro avanço. A comitiva de caracóis estava na travessia de estrada, volto a dizer ao meu pai que estou muito bem e sigo! Sabia que havia novo abastecimento no final do primeiro "troço" da descida e queria abastecer os flasks e iniciar uma das subidas mais pronunciadas da prova! É precisamente nesta descida que começa o desconhecido para mim, a descida até Loriga é "exclusiva" da prova dos 109kms... Se já tinha visto algumas imagens da descida no briefing do dia anterior, só quando lá cheguei percebi realmente a descida que se tratava: inclinação brutal, técnica e com paisagens belíssimas! Só é pena que um gajo não consiga ver nada para estar de olho nas pedras (quem me manda a mim ser mau nas pedras?) Vejo o grupo todo a passar por mim e acabo por formar um duo com o Ezequiel Lobo que estava a descer a um ritmo semelhante ao meu... Vamos fazendo a descida e vamos conversando sobre a prova e sobre os ritmos alucinantes que a malta pratica a descer. Já perto do final da descida acabo por passar para a frente e tento arriscar mais um pouco na descida... Sabia que esta estava a acabar e queria tentar não ser alcançado pelo grupo de trás! É assim que entramos na aldeia e encontramos o 2º abastecimento com comida, o 3º com líquidos. É a primeira vez que paro mais de 20'' num abastecimento! Como uns salgados, o meu pai e a minha irmã trocam-me os flasks e sigo novamente com o Ezequiel para uma parte que era nova em toda a prova, a passagem por Fontão, antes de seguir para Alvoco.
Chegada a Loriga (foto da mamã)
Após sair do abastecimento continuamos a descer a aldeia de Loriga até que finalmente apanhamos um trilho que inicialmente se desenrola a "meia encosta" e que depois segue por uma subida parecida com a primeira, mas com pior piso (ramos secos pelo meio e lama)! Inicio a subida com o Ezequiel e depois apanhamos dois companheiros do Coimbra Trail Running e o Armando Costa do Dão Nelas Runners, seguindo logo atrás de nós o Pedro Batista, do ARSM. Tal como anteriormente estava a sentir-me muito bem a subir e na fase mais inclinada da subida acabo por seguir sozinho, ligeiramente destacado deste grupo e quem vinha mais próximo de mim era o Ezequiel e um dos elementos de Coimbra... Assim que a subida se "aligeira" o Ezequiel passa por mim, ficando os 3 espaçados por cerca de 50mts. Fazemos a subida a bom ritmo até que chegamos a um cruzamento e não vemos as fitas... O Ezequiel foi ver à frente se havia alguma coisa e nós fomos atrás ver se nos tínhamos enganado! 100mts atrás lá se encontravam as fitas à direita, para descer um corta fogo, chamo o Ezequiel e sigo para baixo... Quando o terreno volta a "planar" acabo por recuperar os lugares que tinha perdido com o engano e chego a Fontão na frente do grupo! 

Chegada a Fontão
Aproveito novamente para comer qualquer coisa, meto pela primeira vez pão, mais uns salgados, o André, o meu pai e a minha irmã vão-me tratando dos líquidos e quando já tinha tudo pronto arranco novamente com o Ezequiel que mesmo não me tendo ouvido a chamar por ele tinha chegado pouco depois de mim ao abastecimento. Fazemos a subida para sair de Fontão e seguimos em direção a Alvoco, o ponto de partida para a subida mais difícil da prova, mas já lá vamos... Nesta zona vou seguindo umas vezes atrás outras à frente do Ezequiel, até que meto a passo para voltar a comer uma barra e o Ezequiel me ganha algum espaço. Vou tentando colar e mesmo antes de chegar a Loriga apanhamos o Marcolino Veríssimo e somos apanhados pelo Tiago Teixeira, ficando ali um grupo de 5 que viria a chegar junto ao abastecimento (eu perdi-me duas vezes 10mts dentro da aldeia e acabei por ficar para último do grupo com o Marcolino Veríssimo.

Abastecimento de Alvoco, a falar com o meu pai
Este era o primeiro abastecimento com sopa... Como imaginava aquilo que ia apanhar no próximos 7kms (2kms a subir bem e os últimos 5kms onde se subia ainda mais, no quilómetro vertical), comi a sopa, uns bolos secos, dois bocados de banana, tudo isto enquanto ia contando a prova ao meu pai! Estava a sentir-me bem e os quilómetros ainda não se tinham verdadeiramente apoderado de mim... Como tentei comer o máximo que podia fui o último a sair do abastecimento mas a curta distância dos restantes, tanto que dois quilómetros após o abastecimento seguia atrás do Nelson Amaral (que se tinha perdido) e à frente do resto do grupo! As subidas estavam a dar-me um alento enorme e a que se seguia embora fosse muito dura estava a sair-me de feição... Já dentro do quilómetro vertical começo a ver um dos estrangeiros ao longe e sensivelmente a meio vejo que é o Thomas Wagner, que me tinha passado ainda na primeira subida! Tento ao máximo manter o ritmo que levava e consegui chegar a ele... Passei, olhei para trás e o Ezequiel já vinha mais para trás, estava a correr-me ainda melhor do que estava à espera, além de ter conseguido passar um atleta, estava a conseguir fazer uma subida muito consistente! Continuo na senda do Nelson e vejo o Pedro Rodrigues... Consigo também chegar a ele e o Pedro cede-me a passagem (boa recuperação da lesão, companheiro). Estava a ser perfeita esta subida e depois de passar todos aqueles momentos em que parece que a subida vai acabar e há sempre mais um monte para "escalar" vejo a torre e já só faltavsa mesmo uma reta de 500mts para a alcançar! Consigo correr, ainda que a um ritmo muito calmo vou-me aproximando da torre... Oiço a minha mãe a gritar por mim, a Carla Reis a pedir um sorriso para a foto (desculpa mas o cérebro já não permitia esse tipo de reações) e vou para dentro da torre! Não o queria transparecer mas estava num estado ligeiramente "eufórico" estava tudo a correr bem e queria manter aquela toada. 

Chegada ao ponto mais alto de Portugal Continental
Aqui voltava a haver sopa, ainda que não houvesse tigelas nem colher para a comer... Um copo que serviu de tigela e uma colher de sopa dada pela senhora que estava a acompanhar o Nelson (obrigado pelo gesto) e comi/bebi dois copos de sopa! Estava tudo a correr tão bem que não queria que fosse por falta de alimentação que a prova corresse mal... Após um ligeiro momento de descanso saí do abastecimento, ligeiramente à frente do Nelson e segui para os 50kms que restavam da prova! Os próximos 12kms quilómetros eram semelhantes ao que já tinha encontrado no ano anterior... Descida pelo alcatrão, seguíamos pelo trilho do Major (um dos mais técnicos do percurso) e seguimos por um planalto da serra até entrarmos na descida que vai dar ao Vale Glaciar! O Nelson passa-me logo nos primeiros metros de descida após uma "pausa técnica" e sigo no meu ritmo ao longo da restante descida... É no trilho do Major que começo a perceber que alguma coisa não está muito bem, o corpo parecia estar a perder a "força" de outrora e a tecnicidade deste trilho não estava a ajudar nada! Apesar de tudo consigo fazer a fase do planalto a correr a um ritmo razoável e entro na tal descida que vai dar para o Vale Glaciar... Como ia a descer não me apercebi que o ritmo não estava muito alto, ia passando pelos atletas dos 46kms, incluindo o Miguel Costa (ator), com quem troquei umas palavras e aquela falta de força não se notava de sobremaneira. Foi já perto do próximo abastecimento (antes de subir o lado direito do Vale Glaciar, no sentido da prova) que o Ezequiel me volta a passar e percebo que perdi muito tempo nestes quilómetros entre a Torre e o Vale Glaciar... Sigo atrás dele e chegamos rapidamente ao abastecimento. Encho de água e começo a subida que iria dar ao alcatrão! Vejo pela primeira vez o Pedro Ribeiro que tinha feito os 24kms, digo-lhe que as forças estão a começar a faltar, ele puxa por mim e quando passo pelo meu pai digo-lhe que estou a subir bem mas que a descer e a direito a coisa está mais complicada.
Foto do Pedro após o abastecimento do Vale Glaciar
Seguimos novamente o trilho que levava ao topo do Vale Glaciar e volto a ganhar alguma vantagem ao Ezequiel... Passo pelo grande Vitorino Coragem, trocamos umas palavras e lá sigo em direção ao abastecimento que este ano estaria na Casa de Apoio do Poço do Inferno, em vez de Poios Brancos, como no ano anterior! Durante a fase plana entre a subida que falei anteriormente e a Casa de Apoio, o Ezequiel passa a uma velocidade alucinante para mim na altura (não tenho a certeza mas parecia ir a correr abaixo dos 5'/km) e fico definitivamente para trás... Vou fazendo grande parte a correr mas de vez em quando metia a andar e lá chego à Casa do abastecimento! Como me estava a sentir mais fraco parei para comer, desde sandes a chocolate passando pelas bananas ia comendo de tudo o que apanhava. No final enchi os flasks com água fresquinha (o único abastecimento onde a comitiva de caracóis não foi) e segui viagem... Esta parte era uma novidade para mim, acabei por apanhar "boleia" de um grupo da prova pequena durante um grande bocado da descida e quando voltou a subir segui sozinho. Fiz o acesso ao Poço do Inferno a passar malta da prova dos 46kms até que chegámos à separação das provas (não dei grande relevância ao Poço do Inferno porque é um local que já conheço há muitos anos, mas é sem dúvida um local imponente, o acesso é que não é muito fácil com novos troços de autêntica "escalada"). 

Após a separação seguíamos por alcatrão durante 1km e entrávamos num trilho com uma autêntica parede pelo meio de um "bosque" e que iria culminar numa "mini besta" (apelido dado pelo Pedro Caprichoso) onde basicamente entrei em desespero... No fim de tantos quilómetro ter que fazer escalada (a não utilização de aspas é intencional) não é bem o meu tipo preferido de trilhos mas lá está, é igual para todos! É mesmo no topo desta parede que o Pedro Batista me passa... A seguir a esta parede, uma descida onde não havia qualquer caminho! Umas fitas penduradas nas árvores indicavam o local que tínhamos que palmilhar! Honestamente foi a parte que menos gostei da prova, a Estrela tem tantos trilhos e tão belos que aquela ligação pareceu demasiado forçada. De seguida entramos num trilho marcado pelo Parque que ia dar diretamente ao Vale da Amoreira... O calor estava a apertar com os atletas e só me apercebo verdadeiramente disso quando o Pedro Ribeiro e o André vêm a correr na minha direção (vinham quase a sprintar, tal era a preocupação, obrigado companheiros), com água na mão a perguntar se precisava! Estava a tentar gerir a água até ao abastecimento mas aquele meio litro soube maravilhosamente... Aproveitei para dar os parabéns ao Pedro pela ótima prova que fez nos 24kms e apesar de nesta altura já alternar mais frequentemente entre o passo e a corrida tentei fazer o que restava até ao Vale da Amoreira a correr, até para poder voltar a comer convenientemente, esperava eu. 

Abastecimento do Vale da Amoreira
Felizmente neste abastecimento tínhamos novamente a sopa e também massa... Comi os dois, parei um bocado para tentar recuperar forças e com uma enorme atenção por parte de toda a comitiva dos caracóis (obrigado malta, do fundo do coração) lá segui para os últimos 20kms da prova! A verdade é que não fazia a mínima ideia do que iria apanhar e quando percebi "onde estava metido" entrei em desespero... A energia da massa ainda não tinha chegado aos músculos e quando percebo que vou para a torre de vigia que estava mesmo no ponto mais alto daquele monte entrei em desespero! 800mts de D+ em 5 quilómetros já é duro em qualquer situação, agora imaginem após 90kms na Serra da Estrela, é de loucos! Tentei gerir emocionalmente esta má fase mas a coisa não se afigurava fácil... O escuro da noite estava a começar a instalar-se e poucos minutos depois de passar pela tal torre de vigia sou obrigado a ligar o frontal. Ainda vejo os dois atletas que me passaram ao longo da subida mas o facto da noite ter caído e de estar mesmo muito cansado obrigou-me a ter cuidados redobrados e deixei completamente de os ver! Quando chegamos ao alcatrão, sem me aperceber o meu corpo estava novamente a ter alguma força, mas o estado anímico não me permitia sequer raciocinar, quanto mais sentir a força... Quando chego ao Sameiro estava mesmo chateado, estava a entrar em desespero por saber que ainda tinha que apanhar uma subida muito parecida com a anterior e ainda por cima de noite! O meu pai lá foi falando comigo, fui ao abastecimento e quando voltei estava mais calmo. 

Só faltavam 10kms, independentemente da altimetria, tinham que ser feitos! Tal como previsto seguia-se uma enorme subida... Se a anterior eram 800D+ esta era mais suave: 700D+!!!! Lá começei a subida e tentei meter um ritmo mais forte! Entre os 65 e os 95kms fui muito lento e queria evitar ser ultrapassado por mais alguém. Esta subida feita de noite mais parecia o quilómetro vertical, quando parecia que não havia mais para subir, lá vinha mais uma rampa enorme e o final então era de loucos. Quando cheguei ao topo e começei a descer pensei que já só faltavam 5 quilómetros, agora era gerir da melhor maneira, tentar correr o maior tempo possível para chegar a Manteigas no lugar em que estava... Consegui fazer quase tudo a correr, inclusivamente quase toda a subida que dava acesso a Manteigas, estava finalmente a sentir-me razoável outra vez! Fiz o percurso todo por dentro da aldeia a correr e ao fim de 17h16' estava de volta à reta que tinha percorrido minutos antes da partida!

Passagem pelo pórtico de chegada onde o Joca aguardava pacientemente pelos atletas, obrigado pelo enorme apoio que tens prestado aos atletas nas provas onde marcas presença!
Estava finalmente concluída a prova mais difícil da minha vida! Uma prova cheia de ensinamentos onde passei pelo estado de euforia aos 60kms e aos 100kms estava em completo desespero voltando a estar em "mínimas" condições aos 105kms... Este tipo de provas levam o nosso corpo ao limite e no final senti claramente que todo o esforço a preparar esta prova tinha valido a pena! O tempo não era de todo o planeado mas as condições em que se realizou esta prova levaram a que ficasse muito satisfeito comigo próprio e ainda mais com o 11º lugar da geral e 4º SenM! Mais satisfeito ainda fiquei quando vi o Crispim a chegar a seguir a mim e o Gil pouco depois, conseguindo a nossa equipa finalizar em 3º lugar, feito conseguido pela primeira vez no Campeonato Nacional de Ultra Trail Endurance! Parabéns à restante caracolada que terminou esta prova, aos que concluíram as provas mais pequenas e esperaram por nós "noite dentro" e à comitiva de caracóis que tornou estes resultados possíveis... Não só nos acompanharam durante toda a prova, como garantiram que nada faltava aos atletas, ficavam felizes por nos verem a cada abastecimento e transmitiam essa alegria para nós... Já não tenho mais palavras para descrever esta "família", obrigado por tudo! Dentro desta família gostava mesmo só de dar um agradecimento especial aos "Godinho" pela maneira como me acompanham em todas as provas! Desde o cuidado do meu pai, ao carinho da minha irmã passando pela preocupação da minha mãe demonstram todos os dias o que é ser a melhor família do Mundo, obrigado! Ao Carlos Mendes que não conseguiu concluir a prova, não te preocupes, outras oportunidades surgirão, cá estaremos para te acompanhar!
Por fim agradecer a quem acompanhava de longe a prova, a todos os caracóis que iam acompanhando pelo facebook, ao Duarte Mendes que foi acompanhando a prova toda e estava preocupado por o meu chip não estar a passar nos "abastecimentos" e à Mariana que estava a sofrer ao longe por não ter notícias e não conseguir falar com frequência com a minha irmã!

Prémio pelo 3º lugar de equipas
Resta só fazer mais dois apontamentos em relação à prova, sobre o equipamento e sobre a organização:
Em relação ao primeiro ponto não podia estar mais feliz... A mochila da Instinct fez os 109kms com o material obrigatório todo, sempre com tudo "à mão" e sem nunca se tornar um "peso", continuou sempre o colete que prometia ser! As meias compressport fizeram os 109kms sem nunca serem trocadas e sem uma única bolha ou caule, uma ótima surpresa! Os calções WAA foram já uma confirmação, fizeram a prova toda sem saírem do lugar, sem uma assadura! Se o resultado não foi melhor garantidamente que não foi pelo equipamento. Só não consegui tirar grandes conclusões em relação ao relógio porque foi só basicamente receber, configurar, correr e entregar, mas pareceu muito completo.
Em relação ao segundo ponto, embora a organização tenha "pecado" em alguns pontos não deixa de receber os meus mais rasgados elogios. Planear um percurso tão belo como este, preparar tudo para que não falte nada aos atletas e a preocupação pessoal com que fui tratado por TODOS os elementos do staff são motivo mais que suficiente para querer voltar a esta enorme prova, parabéns Armando Teixeira e restante equipa por este enorme evento com que nos presentearam, uma prova de atletas para atletas!

Comentários

  1. Espetacular, Tiago. Muitos parabéns. Já me tinha perguntado quando é que voltarias ao endurance! Devia estar distraído, estava convencido que ias de novo à distancia média do EGT. Engraçado que os estados que descreves são praticamente identicos à minha prova do ano passado. Também cheguei eufórico à Torre e foi precisamente no Major que comecei a cair. Por isso é que gosto de ler sobre corrida, mais rápido ou mais devagar, todos passamos pelas mesmas dificuldades. Um abraço e obrigado pelas dicas de equipamentos, ainda não me esqueci do treino na serra para testar o colete!

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    1. Desde o ano passado que decidi que este ano tinha que ir aos 100kms desta prova... A Serra Da Estrela fascina-me de sobremaneira e adoro voltar para lá correr :)
      Claro que sim, o esforço físico está lá sempre, só que é adequado a cada um... Tive pena que a recuperação só se desse aos 105kms mas estamos sempre a aprender :)
      Eu também não, vamos falando para ver quando volto à minha serra... Este fim de semana vou ao Columbeira fazer 20kms em ritmo de "recuperação" :)
      Muito obrigado, Filipe, grande abraço!

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