4ª Paragem: Ultra Trail Ferreira do Zêzere

Ultra Trail Ferreira do Zêzere

Distância: 70.48kms
Tempo: 08:32:54
Classificação Geral: 7º Classificado
Classificação Escalão: 4º Classificado SenM

Ao longo da semana que antecipava esta prova fui criando algumas expectativas para mim próprio. Não queria estar na prova apenas para competir comigo mesmo, queria aproximar-me o mais possível daqueles que são considerados os "campeões", queria evitar os "outsiders" à minha frente, queria dar o que tinha e inclusivamente aquilo que não tinha...

Dia antes da prova foi o mais regrado possível, tentei meter água, fazer as refeições como deve ser, dormir o máximo possível, sabendo que no dia anterior às 5h da manhã estaria a pé. A única coisa que não cumpri a 100% foi o sono, mas apesar de tudo consegui estar na partida com boas sensações e pronto para aquela aventura que não se avizinhava nada fácil, afinal de contas, já fiz 3 provas este ano parecidas com esta (Piodão, Rocha da Pena e Serra D'Arga) e em nenhuma delas acabei propriamente "bem".

Chegada a Ferreira do Zêzere, ver umas caras conhecidas, últimos retoques no equipamento e siga para a partida, junto com os meus companheiros de aventura, o meu mano mais velho e o Marco. O Marco ia fazer a sua estreia numa distância tão grande e tentaria ir connosco até dar e depois gerir a prova. Às 7h inicia-se o briefing da prova e siga, vamos ver o que encontramos por esses "montinhos" que por aí andam. 1km com os campeões e logo seguiram ao ritmo deles, dando ainda para ver o Jerome no início do 3º km já isolado tal como faria os restantes kms da prova, que senhor! A prova tinha um início algo rápido. Nos primeiros 15kms os desníveis eram curtos, apesar de muito inclinados (positivos e negativos), e no restante tempo era perfeitamente corrível. A partir daí a prova começava a ganhar outra toada com desníveis mais frequentes e mais longos o que fazia com que num espaço de 10kms fizéssemos cerca de 750mts de D+. Era altura de começar a dar atenção ao corpo e perceber como estava... Embora me sentisse bem, as pernas começaram a ficar ligeiramente pesadas, o desnível começava a deixar marcas e era muito importante abastecer bem.

Foto da equipa na partida para os 70kms
Após estes duros kms andámos numa zona sempre junto ao rio, uma zona de uma beleza fantástica, como poucas provas apresentam em Portugal e uma zona muito rolante também. Os ritmos podiam aumentar mas tinha que haver juízo para não pagar isso mais tarde, cheguei a olhar para o relógio e obrigar-me a "travar" porque 4:50min/km numa prova destas, a faltarem quase 50kms para o fim era claramente exagerado. Tudo corria bem até aqui, ainda ninguém tinha grandes queixas, o percurso apesar de duro estava bom e a classificação também estava a corresponder, sabíamos que pelo menos dois dos 3 estavam no top 10, era só manter e a prova seria bem satisfatória a nível coletivo.

Os kms que se seguiam eram novamente desnivelados... Em 6kms teríamos duas subidas muito inclinadas e uma descida tão inclinada como a primeira. Foi aqui que começei a sentir as pernas mais a sério, durante a descida não havia "travão de mão" possível e era deixar ir o corpo, mas os amortecedores (pernas) ressentiam-se dos impactos que iam sofrendo. Os olhos iam sempre no chão para evitar os saltos e evitar de pôr os pés em posições que colocassem em risco a conclusão da prova. No final desta descida, quando já estava plano, no acesso ao leito de uma ribeira seca, vejo o Pedro a cair e como não o ia deixar ficar mal, caí também... Foi levantar, confirmar que estava tudo bem e seguir.

A partir dos 45kms o Marco começou a ceder nas subidas, embora todos fossemos a andar, eu e o Pedro estávamos a começar a ficar ligeiramente à frente, mas rapidamente voltava ao grupo quando o terreno aplanava, ele disse para irmos, mas não havia necessidade, pelo menos enquanto ele conseguisse recolar. Fomos assim até aos 50kms onde encontrámos o Jerome (que estava na sua segunda passagem no local, com 58kms de prova) e parecia que o homem tinha acabado de partir, tal era a frescura que apresentava. Depois deste abastecimento... Foi somente a subida mais dura da prova! Já era expectável, bastava analisar o gráfico da prova, mas só lá estando se compreende. Já fiz muitas subidas duras, mas eram subidas inclinadas e longas, esta era muito inclinada e de média duração, o que fazia com que se olhasse para cima e não se visse o fim, aliás, para piorar a situação, quando parecia que se via o fim, virávamos à direita e continuava a subida, até finalmente ver um delta que simbolizava o final da subida. Ao longo da subida o Marco foi ficando cada vez mais para trás e quando chegámos lá acima percebemos que já não iria recolar, metemos o nosso ritmo, o Pedro na frente, até porque íamos a descer, e eu com as pernas já bem pesadas, tentava seguir o ritmo.

Gráfico do Ultra Trail do Zêzere

Quando o terreno voltou a ficar mais plano, chegámos a uma aldeia que gostei muito de ver, Dornes... Uma península muito calma e muito bonita e que por estar circundada por água ganha uma beleza ainda maior. Revimos os pais do Pedro que nos informou que o Paulo Lopes, da nossa equipa, tinha subido na classificação, e atacámos os últimos kms da prova sabendo que o mais difícil da prova já tinha passado. Com um ritmo certinho e com a velha regra de sempre que não se vê o fim à subida é a passo, voltámos ao abastecimento dos 50kms (que agora eram 58kms), reabastecemos e metemos um ritmo ligeiramente mais forte, até porque sabíamos que tínhamos dois atletas atrás e não queríamos estragar o que de bem estávamos a fazer. Foi nesta fase que vimos à nossa frente o 7º classificado da altura. Já se sabe que nestas ocasiões vamos sempre buscar energias onde não sabíamos existir, mas o corpo ainda recomendava calma, afinal de contas faltavam cerca de 10kms, ou seja, pelo menos uma hora, e o corpo podia não gostar do aumentar de ritmo. Como a classificação coletiva era importante e o Pedro estava a sentir-se mais forte, seguiu no ritmo dele e conseguiu passar ele para o 7º lugar, tendo também eu aumentado o ritmo, mas não ao ponto que ele o fez. Cheguei ao abastecimento dos 65kms e rapidamente saí na perseguição. Fui sempre ligeiramente acima dos limites, mas já sabia que o pior estava para trás, portanto o corpo tinha que se aguentar. Meti um ritmo ainda mais alto, as forças pareciam estar a voltar e consegui eu chegar ao 8º lugar, estando a ganhar ainda mais força pois ia passando o pessoal dos 35kms e tinha sempre uma "lebre" à minha frente. O ritmo estava tão porreiro e o corpo a reagir tão bem que ainda fui apanhar o Pedro e metemos um ritmo forte para não sermos apanhados. Eu ia puxando, tal era a "euforia" com que estava o corpo, e quando chegámos a Ferreira do Zêzere, o meu mano disse para passar à frente porque ia mais forte, eu ainda tentei explicar que ele tinha puxado durante boa parte do percurso, mas naquela altura não há muitas forças para ter discussões. No final, aquele abraço, que já se repetiu várias vezes ao longo da época e que marca o culminar de mais uma aventura feita por dois rapazes que além de colegas de equipa são dois grandes amigos, que estão cá para tudo! És enorme, mano, obrigado por tudo!!! Pouco tempo depois chegava o Marco que acabou por não perder muito, conseguindo obter um brilhante 11º lugar na sua primeira prova acima dos 55kms. Parabéns companheiro!

O abraço no final dos 70kms

Para culminar este grande dia, um recital de petisco feito pela melhor equipa do Mundo, o Caracol Trail Team. Deu para comer, beber, repor energias, contar as histórias que marcaram esta aventura e festejar as vitórias quer individuais quer coletivas que foram obtidas pela equipa! Afinal de contas não é todos os dias que se vai a uma prova e se ganha a prova de 35kms e a de 70kms e ainda temos três pódios em escalões (2 nos 35kms e 1 nos 20kms)... Muitos parabéns a todos!

Recuperação no recital de petisco da equipa
Uma palavra final para a organização: A prova estava praticamente perfeita! A preocupação com os atletas foi constante, tendo a preocupação de tornar uma realidade aquilo que foi anunciado ao longo do tempo. As gentes que estavam a acompanhar a prova e inclusivamente os elementos que ajudavam a organização nos cruzamentos eram todos simpáticos e foi rara a situação em que não recebíamos um "bom dia". Os kms, embora com um a pequena falha no km 27/28 estavam lá para ajudar os atletas e foram muito úteis. Os abastecimentos eram os suficientes e em grande quantidade e qualidade, só acrescentando aqui um ponto... Os elementos que estão nos abastecimentos, podiam mesmo auxiliar os atletas, enchendo os bidons, por exemplo. Apesar de isto acontecer em alguns, noutros limitavam-se a olhar não se tornando uma ajuda consistente para quem já leva horas nas pernas e agradecia de que maneira um auxílio nestas tarefas. Quando este é o único ponto a referir à organização, está tudo dito... Se tivesse que atribuir uma nota a este evento, não teria dúvidas que teriam a nota máxima! Muitos parabéns a todos!

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