Caracol Babado: 24H de Portugal por Aníbal Godinho

As 24H de Portugal são uma prova diferente do que estamos habituados e o meu pai fez uma prova, no mínimo, espetacular! Fica aqui o seu texto, não só como um testemunho da prova mas também como uma homenagem a este grande senhor que fez de mim quem eu sou hoje! Parabéns e obrigado por tudo!

Um pouco mais a frio vou tentar descrever aquela que foi a minha prova de sonho dos últimos anos, as 24 horas de Portugal. Mesmo assim quero dizer que, este é um texto escrito com a cabeça, mas muito mais com o coração, pode não estar muito bem escrito mas isso pouco me importa pois o mais importante da vida são as emoções, é aquilo que fazemos com paixão e este fim de semana é um bom exemplo do que pode acontecer quando o esforço se alia a uma grande Amizade e cumplicidade entre todos.
Tudo começou a 2 abril quando acabei os 100 kms de Portugal em Lousada. Fiquei em 5º da geral e 1º M50 e com a sensação de que tinha encontrado o meu tipo de provas: em circuito fechado, voltas relativamente curtas que permitem a gestão do esforço, dos abastecimentos e do apoio, sabendo sempre exactamente o que me espera, só estou dependente de mim, das minhas capacidades físicas e de gestão. No final desse dia decidi que iria tentar as 24 horas embora receoso pois são muitas horas e kms a mais para a minha experiência.
Sem mudar muito os meus treinos a data foi-se aproximando e fui convencendo alguns elementos da minha equipa a participar e foi com satisfação que vi a presença de 3 equipas do Caracol Trail Team, uma delas feminina, na linha de partida.
O dia 17 de Setembro chegou e de manhã cedo a comitiva seguiu para Vale de Cambra. Dorsais levantados estava na hora de montar a “aldeia Caracol”. Tranquilamente falamos uma última vez sobre as perspetivas que tínhamos para cada equipa e seguimos para em clima de festa dar inicio a esta grande aventura. Sempre ao nosso lado estava a melhor equipa de apoio do mundo, a nossa!!

Aldeia Caracol nas 24H
Partida na cauda do pelotão e de forma super tranquila lá fomos palmilhando os kms de acordo com a nossa estratégia, que consistia em correr 25 kms por cada 3 horas, o que daria  no final 200kms, que na minha cabeça seria o meu resultado de sonho, embora muito consciente da enorme epopeia a que me estava a propor. As primeiras 3 horas chegaram rapidamente e sem grande esforço tinha dado 14 voltas ( todas entre os 12 e 13 minutos), um pouco mais de 29 kms o que era animador pois estava acima do previsto. Primeira paragem estratégica para comer uma sopinha, uma banana e um copo de coca-cola e siga que se faz tarde. Volta após volta continuava sempre com tempos muito regulares e pouco depois das 6 horas de prova tinha percorrido 27 voltas (57,5KMs). 


Nesta altura  tinha previsto uma paragem maior para fazer uma refeição completa. Assim aconteceu, e com a companhia da minha equipa de apoio privada ( a minha “velha”, a minha filha e o meu sobrinho) comi uma sopa, um prato de massa à bolonhesa, um leite creme com canela e dois copos de coca-cola. Fiquei “tratado que nem um bruto” como se diz na minha terra. De volta à pista tudo continuava como até aqui, embora em algumas voltas já recebia apoio com a preparação de algumas bebidas por parte da minha equipa; tal como em Lousada eu pedia numa volta e na outra lá estavam a minha filha e o meu sobrinho com tudo preparadinho ( nem sei como lhes agradecer a total disponibilidade para aceder a todos os meus pedidos com um empenho profissional). Da mesma forma, volta após volta lá estava a Rosário a perguntar como é que estava e se precisava de alguma coisa, sempre preocupada ( continuam-me a faltar as palavras para agradecer). Nova paragem às 9 horas de prova (83 kms)  para mais uma sopa. Continuava bem disposto e sempre com um grande apoio da família Caracol que parecia que estava em todo o lado, sempre disposta a ajudar e preocupada com o nosso estado, obrigado por tudo. Volta atrás de volta iam passando os outros caracóis das estafetas, sempre muito bem dispostos e em muito bom andamento, momentos sempre aproveitados para trocar umas palavras de incentivo que, acreditem, eram uma grande ajuda. Segunda refeição completa após 12 horas de prova (106,5 kms), comi exactamente o mesmo que tinha comido às 6 horas só que desta vez bebi um café. 

A tentar repor energias
Estava cansado mas bem disposto e com grande vontade de continuar. Entrávamos no período crítico para alguns: a noite;para mim é a melhor altura, pouca gente na pista, tranquilidade absoluta. 

Na tranquilidade da noite
Nesta fase comecei a fazer dois pequenos períodos de marcha em todas as voltas, que para mim eram fundamentais para o equilíbrio físico e emocional. Apesar de ser de noite, sempre caracóis acordados para além dos que estavam a correr e sempre com uma disponibilidade total. Que grande apoio! A minha “velha” lá estava sempre para o que fosse preciso!!!!! 3 da manhã, 15 horas de prova, mais uma sopinha. A corrida intercalada com pequenos períodos de marcha continuava e assim cheguei ás 6 da manhã, 18 horas de prova, altura de tomar a última refeição completa e a ementa foi a mesma das outras: sopa, massa e leite creme acompanhados com coca-cola. Nesta refeição tive a companhia da minha equipa de apoio e do Carlos Mendes que tinha terminado um dos seus turnos de corrida. Trocámos umas impressões sobre as nossas provas e pela primeira vez falamos de classificações. Eu, uma das nossas equipas masculinas e a equipa feminina seguíamos todos em 2º lugar nas respetivas categorias e a outra equipa masculina seguia em 10º. Era fantástico e superava as nossas melhores expectativas. Apesar de não ser o meu foco principal não posso deixar de reconhecer que o orgulho que estes resultados me deram foi um grande tónico para as 6 horas que faltavam. Já tinha percorrido mais de 153 kms e continuava acima da minha melhor previsão. Apesar de cansado estava motivadíssimo. Tinha um pouco mais de 2 voltas de atraso do primeiro classificado e apesar de ser um atraso significativo( +/- 4.5 kms) fiquei entusiasmado, mas rapidamente a minha parte racional me acalmou e continuei com a mesma estratégia de caminhar durante alguns períodos em todas as voltas. Chegam as 21 horas de prova e por esta altura tinha uma volta de atraso da frente mas decido manter a pequena paragem habitual, mas desta vez optei pela fruta em vez de sopa. Nesta fase percebo que a nossa equipa masculina também se está a aproximar da frente e começa a crescer a emoção cada vez que passo na zona de meta onde o apoio era mais que muito, era extraordinário. Várias vezes “suei” dos olhos como diz o meu Amigo Perneta Mor, Carlos Cardoso. Nesta fase em todas as voltas tinha a minha filha Joana e o meu sobrinho Floriano a apoiar de um lado da pista e do outro tinha a Rosário sempre à minha espera para me acompanhar numa das partes em que caminhava. 

Apoio fundamental
E sempre que passava na meta o apoio aumentava, foi indescritível, nunca me irei esquecer. Entretanto com cerca de 22h30m de prova passo para o 1º lugar e emociono-me. Volto a “suar dos olhos”. As poucas forças de que dispunha, ainda me mantinham com um bom ritmo e aos poucos  fui percebendo que a vitória não escapava. Percebo  também que a nossa equipa masculina já estava na frente. Emoção a dobrar. Com 23h55m de prova chego à zona da meta e sei que tenho mais de 10 minutos de avanço o que me permite esperar para passar a meta com 24 horas exactas. Neste período de espera, converso com a Rosário e de seguida afasto-me um pouco da linha de chegada e liberto toda a adrenalina que estas ultimas horas provocaram. Volto para perto da meta e chega a Flôr Madureira que venceu brilhantemente a categoria feminina; trocamos parabéns acompanhados de uma foto conjunta. 

A tão desejada fita da meta

Com a grande vencedora feminina, Flor Madureira
O pessoal do Caracol vibra para lá da meta e o grande momento chega: corto a fita de mão dada com a grande vencedora feminina. Foram momentos inesquecíveis de tão intensos. Abraços muito sentidos a todos os Caracóis e uns especiais a quem sofreu tanto ou mais do que eu: a minha equipa privada de apoio. Sento-me na 1ª cadeira que encontro e fico sozinho a tentar “digerir” o que tinha acabado de viver. 

Emoção da vitória

O descanso do guerreiro
Foi intenso, muito intenso mesmo! Durante breves segundos passou-me tudo pela cabeça, os muitos anos dedicados a esta paixão, o apoio incondicional e sempre presente da família, a imensidão de Amigos que tenho conseguido fazer, os bons e os menos bons momentos que tenho passado e que fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Entretanto vão chegando as restantes equipas do Caracol e vive-se um ambiente extraordinário, impossível de explicar por palavras, só lá estando, são momentos que nunca vou esquecer e vão ficar bem gravados na minha mente por mais anos que viva. 

Equipa vencedora das Estafetas a 4

Grandes velhos... 9º da Geral

Grandes caracoletas... 2ª Geral Feminina

Quero agradecer a todos os Caracóis, atletas e equipa de apoio, por me terem permitido vivenciar emoções tão fortes como aquelas que durante um pouco mais de 24 horas fomos vivendo naquele parque urbano de Vale de Cambra.
Gostava de referir que esta vitória permitiu-me realizar um sonho que pensei que já era impossível de realizar: Ser vencedor de uma prova na classificação geral para poder dedicar à minha filha Joana Godinho, pois em várias conversas que tínhamos tido me dizia que gostava muito de me ver a ser o primeiro a chegar numa prova, dado que o irmão tinha tido esse prazer nas Maratonas de montanha da Gardunha e ela também gostaria( as minhas últimas vitórias na geral foram nas Maratonas da Gardunha, entre 1997 e 1999 e o Tiago esteve sempre presente à minha espera na meta, como continuou a fazer em quase todas as provas em que participei durante muitos anos). Sonho concretizado e logo numa prova épica como esta!

De referir ainda a presença na prova de vários atletas a participar também com cariz solidário, doando e levando outros a doar um determinado valor por cada Km percorrido. Entre eles gostava de referir dois atletas com quem tive o prazer de partilhar o pódio: o Duarte Gil Barbosa na geral e o Ricardo Bastos no escalão. Bem Hajam!!
Pódio Geral

Pódio Escalão M50

Parabéns para a organização, estiveram muito bem e permitiram-nos viver  grandes momentos de cumplicidade, criando um ambiente sensacional à volta dos poucos mais de 2000 metros que tinha cada volta. As provas de 24 horas em circuito entraram no coração de todos nós.
O ambiente que se viveu foi único, foi brutal o espírito vivenciado e não posso deixar de referir as mini aldeias que se formaram no recinto como as do Caracol Trail Team, do Clube Atletismo de Lamas, do Scalabis Night Runners entre outros pequenos grupos.
Por último e apesar de não ser original, pois felizmente já vários atletas o fizeram, não posso deixar de referir um atleta, o Orlando Duarte, que apesar de limitado fisicamente por uma cirurgia, marcou presença através de uma outra paixão, a fotografia. O Orlando foi uma presença constante na pista, até durante a noite, sempre disponível, sempre com uma palavra de apoio e registando para a posteridade momentos inesquecíveis. Para além desta faceta não podemos esquecer o seu trabalho final de análise estatística dos resultados, à semelhança do que faz em  outros eventos de longa distância que à muito tempo acompanha e que são um verdadeiro serviço público para o nosso desporto. Muito Obrigado Orlando. Rápidas e consistentes melhoras!

Para o ano há mais, a solo ou em equipa!! Foi mesmo muito Bom!!!

Comentários

  1. Aníbal, nunca te inibas de escrever por questões de semântica, pontuação ou gramática. Tu escreves bem. Já li vários textos teus e, para mim, estás naquele grupo que não dispenso de ler. Nestes casos, o escrever bem nada tem que ver com a língua de Camões. Nestes casos, escrever bem é saber transmitir, não só os dados técnicos, estatísticos e classificativos do que se passou na prova, mas, sobretudo, os sentimentos e detalhes que nos transportam para dentro da prova e que nos levam a “suar dos olhos algumas vezes”!

    Mais uma vez, aproveito para deixar os meus parabéns. Foste um brilhante vencedor, não só porque fizeste mais km que qualquer um, mas, sobretudo, pela maneira humilde e inteligente como o fizeste!

    Um grande Bravo também para a tua Equipa de apoio que teve um papel permanente, o que nestas provas pode ser determinante, e foi!

    Por fim, o meu agradecimento pelas tuas simpáticas palavras para o meu trabalho fotográfico e estatístico. Desta vez, o gosto e prazer foi o de costume, mas aquelas longas horas em pé e às voltas ao circuito valeram-me um grande edema e uma ligeira dorzinha no joelho... Mas toda aquela família que esteve por lá, incluindo a organização, foram merecedores!

    Orlando Duarte


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  2. Agora por aqui ... muitos parabéns, pela prova e pela prosa ... dá para perceber um pouco do que se passa na cabeça das "máquinas" :) ... e obrigado pela referência.
    Grande abraço e até um dia algures por aí

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    1. Obrigado grande "Perneta-Mor". Também vou à Maratona do Porto, vemo-nos por lá. Grande abraço

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  3. Espectacular, corre no sangue! Muitos parabéns Aníbal, pelo texto e pela magnifica prova.

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    1. Obrigado Filipe. Tal como tu também irei à Maratona do Porto. Vemo-nos por lá. Aníbal Godinho

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