21ª Paragem: Quando tudo corre bem!

Trail do Zêzere

Tempo: 03:16:50
Distância: 35.64kms
Classificação Geral: 2º Classificado
Classificação Escalão: 2º Classificado SenM

Tinha analisado com o meu pai no final da última prova a contar para o Campeonato Nacional de Trail, o Trail do Sôr, quais eram as hipóteses de conseguir terminar no pódio de SenM e as contas não eram muito favoráveis, era preciso uma prova quase perfeita para conseguir atingir um segundo lugar do escalão e garantir assim o 4º lugar da Geral e 3º Senior Masculino. Mas como as contas só se fazem no fim, tinha que treinar para chegar à prova na melhor forma possível.

Os resultados nas provas eram animadores e os treinos eram ainda mais animadores... O corpo estava a receber a carga toda e cheguei à semana da prova com o sentimento de dever cumprido. Nos dois dias antes começei a sentir aquela vontade de competir, de avançar o tempo até ao momento da partida, de ter o corpo a 200%! Descansei e alimentei-me exatamente como tinha planeado e finalmente chegou o dia da prova.

Como sempre, juntámos a equipa toda em Torres Novas e chegámos bem cedo a Ferreira do Zêzere... Vimos a partida de alguns dos elementos da equipa que participaram na prova curta (20kms) e aos poucos fui-me começando a consciencializar do que se seguiria!

Equipa pronta para a partida junto com a mascote do evento
Após a fotografia acima era altura de ir para a partida, cumprimentar os velhos conhecidos do trail e após umas palavras do Luís Graça e a contagem decrescente de 5 até 0, iniciámos a prova... O perfil dos dois primeiros quilómetros era tendencialmente a descer, sem muito declive mas a descer. Logo à partida vi alguns dos melhores nomes nacionais, incluindo dois dos representantes nacionais no Campeonato do Mundo e isso complicava-me muito as contas para o segundo lugar. Como tal, era altura de aumentar um bocado o ritmo para ver quem me seguia! Apesar do ritmo não ir exageradamente alto, os 3'30''/km fizeram com que só viesse comigo o Luís Semedo e o Vitor Cordeiro de Portalegre... Foi assim que chegámos os 3 à primeira subida da prova, logo aos 2 quilómetros, uma parede não muito extensa mas com grande inclinação. Consegui acompanhar o ritmo do duo de Portalegre no início da subida mas já perto do fim, mesmo continuando a correr, eles seguiram caminho deixando-me "sozinho" no terceiro lugar. Logo após a subida temos uma grande descida... Os músculos não reagem muito bem, não estão habituados a esta mudança brusca mas a verdade é que tinham que se adaptar, a prova seria quase toda assim! Pouco tempo depois dessa descida, o Pedro Ribeiro vem de trás e chega-se perto de mim, aproveitámos os nossos ritmos e seguimos juntos. Entre subidas e descidas não muito inclinadas (os primeiros 7 quilómetros eram mais tempo a descer que a subir), passámos pelo meu pai que ia acompanhando a prova, ele perguntou se estava tudo bem, disse-lhe que sim, e seguimos a um ritmo bastante elevado, mais elevado do que tinha "planeado mentalmente".

Primeira passagem pela equipa de apoio do Caracol Trail Team
Pouco depois da passagem pela equipa de apoio iniciamos mais uma subida que mais parece uma parede (1kms com 83mts de D+)... Nessa subida olho para trás e vejo o Tiago Aires e o Hélio Fumo atrás de nós. O cenário não era o mais famoso, caso eles passassem deixava de estar no pódio do Campeonato e disse isso mesmo ao Pedro. Ele disse para seguirmos, para não pensar nisso... Foi assim que chegámos ao topo dessa subida, com algum avanço ainda para o duo que nos ia perseguindo. Como na subida anterior, o que se seguiu foi uma descida com um declive semelhante à subida que culminava no primeiro posto de abastecimento; Como levava tudo o que precisava na camisola e o flask ainda tinha água e o Pedro também tinha tudo o que precisava, seguimos sem sequer parar no abastecimento.

Saída do primeiro abastecimento

Poucos metros após o abastecimento voltávamos a encontrar uma subida bastante inclinada que nos afastava da zona junto ao Rio que dá o nome à prova... Mais uns metros a descer e entrámos no trilho da Cascata! Um trilho onde quase que temos que fazer escalada e onde podemos utilizar uma corda para auxiliar na ascenção mas que acaba por não ser muito longo. Quando estamos quase a chegar ao topo ouvimos barulho e vemos o Tiago Aires e o Hélio Fumo a acabar a descida de acesso ao trilho da cascata. Não podíamos facilitar um bocadinho, tínhamos que manter o ritmo alto e esperar que no fim o senhor da marreta não fizesse das suas. A zona que se seguia era uma zona não muito inclinada, que dava para meter ritmos mais altos, até cerca de 300mts antes do segundo abastecimento, onde existia mais uma subida. Quando cheguei ao abastecimento aproveitei para encher os flasks juntamente com o Pedro e seguimos viagem... Na descida seguinte voltámos a encontrar a equipa de apoio do caracol. Digo ao meu pai que me estou a sentir bem, lembrei-me da última vez que lhe tinha dito isto, na Serra D'Arga e penso no resultado que obtive lá, era exatamente o que precisava naquele dia. Quando iniciamos nova subida, o Tiago e o Hélio estão a iniciar a descida e foi aqui que a prova começou a virar a meu favor... Começei a sentir-me melhor e fiz grande parte da subida a correr, mesmo nos locais mais inclinados! Passamos por uma levada, no ano anterior passei lá (quando participei nos 70kms) sem muita confiança, mas este ano tinha que acelerar, não havia volta a dar. Após esta levada entramos num trilho com bastante desnível, apenas com um trilho de ligação de trilhos com 600mts planos. 

A partir do momento em que voltamos a subir após a ligação volto a meter ritmos fortes, estava verdadeiramente a sentir-me com força e mesmo nos curtos troços que fiz a passo estava a conseguir manter um ritmo forte. Foi nesta altura que o Pedro começou a ficar para trás... Acabei por seguir sozinho numa tentativa de fugir ao duo que vinha em perseguição! Após este trilho fazemos uma ligeira descida e nova parede!!!! Mantenho o "momento" e faço tudo a correr. Quando chego ao topo estava lá um anjo a dizer que eu tinha 902 pecados! Disse logo que não podia ser mas ele disse que era mesmo assim e mandou-me para o inferno; Eu não queria, mas não podia perder tempo a discutir, portanto lá segui para o inferno (obrigado à organização por este momento "teatral" com que foi animando os atletas). O que se seguia era mesmo adequado à palavra inferno, uma descida enorme com um desnível brutal, eu só pensava no que aconteceria se caísse, abrandei ligeiramente o ritmo mas sempre a tentar forçar um bocado mais... Quando chego a uma zona menos inclinada vejo o João Martins, o João Francisco e o meu pai, dizem-me que o Tiago e o Hélio se tinham perdido, que estavam atrasados e começei a acreditar mais que o segundo lugar de escalão era possível, agora é que não podia mesmo quebrar, tinha que dar 110% de mim!

Passei pela equipa de apoio, recebo o aplauso que enche a alma e sigo para uma zona mais plana (que se inicia após o terceiro abastecimento) junto ao Rio Zêzere onde vou passando por atletas dos 70kms e dos 20kms... Vamos trocando palavras de incentivo e vou consultando o relógio para me certificar que não estou a abrandar; Consegui andar entre os 4'10'' e os 4'30'' e isso ia-me deixando mais confiante, começo a fazer contagem decrescente dos quilómetros que faltam para a meta e o tempo vai passando rápido... As paisagens em toda a prova são belíssimas, mas nesta zona são ainda mais bonitas! Já perto dos 27 quilómetros inicia-se uma das subidas mais duras da prova... A mais longa e com zonas de desnível muito acentuado onde para mim era impossível correr. Ainda assim, nas restantes zonas tentei sempre correr para poder compensar as zonas em que não conseguia e sempre que olhava para trás, não me parecia que alguém se estivesse a aproximar. No topo da subida encontra-se o último abastecimento e daqui até à meta eram cerca de 5 quilómetros, não podia quebrar agora! Encho o flask e sigo caminho, faço a descida o mais rápido que consigo e aos 32.5 quilómetros começa a contagem decrescente de 3 quilómetros até à meta concedida pela organização... É também a partir desta placa que o perfil da prova passa para o contrário do início: sempre a subir! É verdade que o declive não é muito mas para quem já vem tão cansado, acaba por se sentir bem nas pernas. Quando estava a cerca de quilómetro e meio duas "caminheiras" avisaram-me que o segundo classificado ia perto! Apesar de isso dar sempre algum ânimo achei que já não ia a tempo, afinal faltava muito pouco, mas a cerca de 800mts da meta vejo o Vitor Cordeiro à minha frente... Início uma espécie de perseguição ao segundo lugar mas de início não estava a conseguir fazer a "junção" até que após uma curva à esquerda, quando entramos no alcatrão começo a aproximar-me cada vez mais até que finalmente o apanho e tento descolar imediatamente! Vejo o meu pai ao fundo, as lágrimas começam a vir-me aos olhos e quando olho para trás vejo que o Vitor não conseguiu acompanhar... Dou "mais cinco" ao meu pai, ele diz-me "granda" prova e começo a "soluçar" interiormente! Aquilo que tinha apelidado como "contas não muito favoráveis" passou a ser real e tinha conseguido ainda melhor que isso, consegui mesmo um segundo lugar na geral! Passei o pórtico da meta "eufórico" e mando-me para o chão!

Chegada à meta dentro do pavilhão
Quando o meu pai chegou perto de mim, não sabia como falar com ele, só queria chorar de alegria! O meu pai percebeu o estado em que estava e decidiu abraçar-me como só nós sabemos... Foi uma prova perfeita e não havia ninguém tão satisfeito com ela como nós, era o nosso momento de festejar!

Este lugar é nosso!
Estivemos algum tempo a conversar, e após uma "flash interview" foi altura de esperar pela chegada dos restantes elementos! Contas feitas e no final ainda conseguimos um segundo lugar coletivo logo atrás do ACPortalegre. Estava na hora de ir fazer o petisco do Caracol para fazer aquilo que tão bem sabemos... Conviver como uma família!
Momentos antes da Flash Interview
Após o petisco seguimos para a entrega de prémios... 2º Geral; 2º SenM e 2ª Equipa! Mas mais importante que isso, um pódio no Campeonato Nacional de Trail, no escalão de SenM, algo que após as duas primeiras provas pensei ser impossível! Como diz o título do post foi uma prova onde tudo correu bem! Em breve passo esta época que terminou com o Trail do Zêzere em revista num novo post.  
Equipa "perfilada" junto com as mascotes do evento após as subidas ao pódio
Por fim uma palavra de agradecimento à organização... O percurso é fantástico, com uma beleza equivalente à dureza da altimetria! Uma organização com voluntários sempre prontos a ajudar e que ainda animou os atletas com os mini teatros que ia tendo ao longo do percurso. Uma organização que oferece prémios bonitos e originais. Uma organização que tem tudo para crescer ainda mais! Muitos parabéns a todos! 

Comentários

  1. Um gajo acaba de ler os teus posts com os bofes de fora! eheh Parabéns Tiago, venha 2017, vou apostar em ti na betclic!

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    Respostas
    1. São vocês a ler e eu a escrever... Fico mesmo cansado :p
      Vê lá não percas o dinheiro, vou lutar ao máximo para que fiques rico :b
      Grande abraço, amigo

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