7ª Paragem de 2017: O (bom) regresso às terras de Sicó

Ultra Trail de Conímbriga Terras de Sicó

Tempo: 04:37:06
Distância: 52.20
Classificação Geral: 7º Classificado
Classificação Escalão: 4º SenM

As últimas semanas de treinos estavam a deixar cada vez melhores indícios, estava a conseguir treinar bem e as consequências deste treino eram cada vez mais "visíveis"... Apesar de todo o cansaço acumulado, os valores obtidos em treinos eram cada vez mais semelhantes ao que consegui fazer no final da época passada. Quando cheguei ao último treino específico antes da prova senti o corpo com força e pronto para ir a Sicó... Este local já tem como que uma mística para mim, visito-o desde 2011 e apesar de ser responsável por 2/3 das minhas desistências, continua a deixar-me uma vontade enorme de regressar.

Em 2017 não podia ser diferente. Depois do choque do ano anterior em que tive que ficar pelos 35 de 111kms, devido à neve e ao muito frio que se fez sentir durante a noite, desta vez optei pelos 52kms. Esta distância pertencia ao Campeonato Nacional de Ultra Trail, ainda que como série 100, e como ainda estou numa fase muito inicial da temporada, era a distância ideal para os objetivos a que me propus. Ainda assim, durante o dia de sábado, três valentes caracóis cumpriram o maior "traçado" da prova, com tempos verdadeiramente fantásticos e com uma brilhante classificação coletiva... Muitos parabéns Pedro Crispim, Gil Vicente e Francisco Mira Gaio. Após ter acompanhado a prova destes enormes caracóis via facebook e por chamada, estava na altura de me deslocar até Condeixa e sentir aquele ambiente de trail que é tão característico quando a "caravana" do trail de Sicó passa por esta terra. Vi algumas caras conhecidas e estava na hora de ir descansar com a família Caracol para a Fortaleza que ocupámos durante o fim de semana.

Fortaleza Caracol para o Ultra Trail do Sicó
A noite foi passada a analisar da melhor maneira possível a prova do dia seguinte, tentar relembrar-me dos trilhos percorridos em anos anteriores e preparar psicologicamente aquilo que enfrentaria no dia seguinte. Era hora de preparar todo o material e descansar o corpo... No domingo cedo foram cumpridos todos os "rituais" matinais de um qualquer dia com prova e seguimos para Condeixa, uma viagem curta mas que foi fazendo crescer o "friozinho" na barriga. À chegada, era hora de equipar e seguir para a partida. Foi exatamente na parte do equipar que surgiu o primeiro problema, quando chegou o momento de meter a mochila às costas e percebi que não a tinha comigo... Lembrava-me de ter preparado tudo de manhã (parte dos rituais matinais) mas não me lembrava de ter posto no carro. Lá seguiu o meu pai em direção à fortaleza e voltar o mais rapidamente possível para tentar apanhar-me no 1º abastecimento. Segui assim exclusivamente com o material obrigatório (um telemóvel e um copo/flask) e fui para a linha de partida junto com mais dois caracóis que comigo enfrentariam a prova de 52kms.

Três caracóis que completaram o Ultra Trail do Sicó
Já na praça de Condeixa era hora de cumprimentar mais alguns velhos conhecidos, pôr a conversa em dia e um minuto antes da partida fez-se um minuto de silêncio seguido de uma grande salva de palmas em nome de uma pequena senhora que tinha muito de grande e que muito marcou o trail nacional, Analice Silva, Descansa em Paz.

Exatamente às 8h30' saiu a comitiva de atletas para mais uma prova do Campeonato Nacional de Ultra Trail. O ritmo não saiu muito forte, os primeiros 5kms eram feitos em terreno plano e com piso fácil portanto acabou por se tornar um ritmo normal... Até aqui a prova tinha pouca história, o pessoal das diversas equipas ia formando o grupo da frente e com naturalidade chegamos às Ruínas de Conímbriga e ao primeiro abastecimento. Felizmente o meu pai tinha chegado a tempo e quando passei por ele foi só devolver o telemóvel (o da prova estava dentro da mochila) e o flask e vestir a mochila. 

Primeira passagem nas Ruínas de Conímbriga

Este abastecimento marcava também o início da primeira e mais longa subida da prova... Apesar de a inclinação se fazer logo sentir, o ritmo da frente não abrandou e percebi que apesar de estar bem fisicamente, não estava preparado para dar logo "tudo" naquela subida. Como tal, adotei o ritmo que me pareceu mais adequado e depois mais tarde poderia fazer a gestão da prova. Imediatamente fui ultrapassado pelo Rui Miguel Pacheco e por mais alguns atletas até que no final da primeira subida tinha passado de 5º para o 10º lugar. Ainda assim, esta queda na classificação não era de todo decisiva, sabia perfeitamente que a prova era muito longa e que quem desse muito até aos 19kms, fase da prova com mais desnível, depois poderia pagar a fatura mais tarde. Tentei sempre manter o ritmo e não perder o "comboio" do grupo de perseguição ao quinteto da frente. Quando passei no segundo abastecimento, disse ao meu pai que estava bem mas que o ritmo na frente ia de loucos e que ia a tentar gerir a prova.

Passagem no segundo abastecimento
Foi a partir deste abastecimento que percebi como seria o resto da prova... Gerir durante as fases de maior desnível (o gerir é muito relativo porque qualquer deslize fazia com que pudesse perder o grupo em que estava inserido) e quando ficava plano, era dar o máximo, quase como se de uma prova de estrada se tratasse. Aos 16kms atingíamos a última grande subida que marcava a fase inicial da prova e desde aí era sempre a descer até ao terceiro abastecimento que estava localizado ao quilómetro 19, nas ruínas do Rabaçal. Por precaução, e por ser a primeira prova com calor que fazia, optei por tomar um pouco de sal e seguir... O que até aqui tinha sido um trocar constante de posições entre o 6º e o 10º lugar acabou por se tornar num grupo constituído por mim, pelo Carlos Ferreira e pelo André Guedes do Dr. Merino onde ocupávamos o 8º, 9º e 10º lugar. Após as ruínas voltamos a uma zona mais plana... Eram cerca de 3kms em que a meio voltei a ver a comitiva de apoio do Caracol e que importante é ir vendo a comitiva ao longo da prova! Obrigado a todos! A prova estava a estabilizar e era a partir daqui que se iria decidir o resultado final.
Na frente do "trio" que se formou após as ruínas do Rabaçal
Como já tinha dito antes, assim que o terreno ficou plano, os ritmos dispararam e foi assim que chegámos a nova subida, aos 22kms... Uma autêntica parede que nos iria levar ao 3º ponto mais alto da prova. Quando iniciámos a subida, o Carlos assumiu a frente do grupo e impôs um ritmo fortíssimo... Apesar de ir a andar, eram passadas constantes, muito difíceis de acompanhar. O trio que se tinha formado estava agora a desfazer-se, o Carlos na frente ainda apanhou um atleta do Arrábida, eu fiquei intermédio e o Guedes acabou por ficar mais para trás. Após esta parede o percurso ficava como que um mini serrote, sobe e desce não muito inclinado que permitia andar sempre a ritmos altos... A aproximação ao castelo de Penela foi feita a bom ritmo e quando entrei na povoação ouvi uma voz a puxar por mim e que me fez maravilhas à confiança, obrigado Mariana Simões por teres ido puxar por mim! Quando cheguei ao abastecimento (28kms) foi dar-lhe um "mais cinco", seguir para o meu pai, dizer que o ritmo continua alto, que quem vem atrás não larga nem um bocadinho mas que ainda assim me estava a sentir bem e que ainda faltava muita prova. Saí rapidamente do castelo e enfrentei os 6 quilómetros seguintes... O ritmo voltou a ser muito alto, a perseguição continuava acérrima e não podia "descansar" um bocado. Ainda assim, apesar de rolar a 4'15''/km não via ninguém da frente, os ritmos estavam alucinantes... Rapidamente cheguei aos 34kms, estava a começar a sentir as pernas cansadas, o que era normal, a prova estava a ser das mais rápidas que tinha feito até aquele dia e não dava sinais de abrandar. Apesar de sentir este cansaço, foi a partir daqui que deixei de ver tanto quem vinha atrás de mim, tentei nunca abrandar o ritmo para não permitir grandes aproximações e só mesmo no topo da última grande subida da prova voltei a ver quem me estava a perseguir... Andei 10 segundos à procura das fitas que se dirigiam a um estradão que não conseguia ver no topo da subida mas após as encontrar, voltei a correr a bom ritmo, ainda para mais porque se seguia a última grande descida da prova. Daqui até aos 42kms era sempre a descer e aproveitei este facto para ganhar ainda mais distância. Aqui deixei mesmo de ver a concorrência e um quilómetro antes de chegar ao abastecimento, vejo dois dos atletas da frente que não via desde a segunda subida: Nuno Torres da Arrábida e Domingos Freitas do Dr. Merino. Sentia as pernas cada vez mais pesadas mas quando vemos alguém à frente arranjamos sempre algumas energias para fazer a aproximação... Fiz a aproximação e rapidamente cheguei ao último abastecimento da prova já à frente do Nuno e logo atrás do Domingos. Como não parei acabei por sair na frente do grupo, ou seja, na 7ª posição. Disse ao meu pai que me estava a sentir bem e que ia ver no que isto ia dar.
A fase que se seguia era a pior parte para mim... Passagens em zonas de ribeiros, por baixo de túneis e onde o caminho estava mal definido, acabei por não conseguir impor os ritmos que vinha a impor e para piorar a situação, aos 44kms tive uma paragem forçada que fez com que o Domingos se voltasse a aproximar de mim. Assim que saí dessa paragem voltei a andar a bom ritmo e voltei a deixar de o ver. Seguíamos por uma das zonas mais características da prova, local onde juntávamos com os atletas dos 25kms e que seguia junto ao rio que nos levava à entrada do Trilho da Cascata. Se a fase anterior não era muito adequada a mim, esta então nem se fala... Sobe morro, desce morro, agarra esta corda, aproveita o corrimão, simplesmente não dava para correr. Tentei gerir a "crise" e quando cheguei à subida final desse trilho da Cascata (como não havia água não deu para aproveitar tanto a beleza natural do trilho) volto a ver o Domingos, 30mts atrás de mim. Assim que terminei o trilho voltei a impor um ritmo forte, o Trilho da Cascata sempre deu para descansar dos ritmos altos e permitiu recuperar alguma força para os últimos dois quilómetros. Quando cheguei à última aldeia antes de Condeixa, sabia que seria só passar por baixo do IC3 e estava muito próximo da meta. Continuei com o mesmo ritmo alto que vinha a impor desde o Trilho da Cascata e cheguei finalmente à meta, ao fim de 4h37'. Este tempo significa que a média final foi de 5'18''/km, durante 52kms com 1700mts de D+. Foi um ótimo tempo para mim que me deixou a 10' do segundo classificado... Se podia ser melhor? Claro que sim, mas este resultado deixou-me satisfeito e acima de tudo com muita vontade de treinar para ser melhor a cada dia que passa!

Após a prova, já com toda a comitiva do Caracol
Quando chegaram todos os elementos da equipa regressámos à fortaleza para recuperar energias com pizza e onde ficou novamente vincado o espírito que esta equipa emana, uma autêntica família! Orgulho enorme de ser Caracol!!!

Gostava só de agradecer a toda a comitiva mas em especial a três elementos:
- Em primeiro lugar ao meu pai... Já não precisamos de grandes conversas ao longo da prova, uma frase é bem indicadora do estado em que estou e entendemo-nos como ninguém com apenas um olhar.
- Em segundo ao Pedro Crispim que mesmo depois de ter completado 111kms no sábado se prontificou a ajudar em tudo o que foi sendo preciso ao longo da prova, és enorme!
- Por último mas não menos importante, agradecer à namorada por ter despendido do tempo pessoal do fim de semana para me vir apoiar nesta prova... Pode parecer um pormenor, mas ir ouvindo a tua voz ao longo do percurso ia-me dando uma nova alma.

Para terminar o post gostava só de dar os parabéns à Associação o Mundo da Corrida por mais uma grande organização. Já faço esta e outras provas com o selo desta organização há vários anos e saio sempre satisfeito. Num percurso com 52kms só tive dúvidas na marcação num local e não demorei mais de 10seg a resolver, muitos abastecimentos e com qualidade, um percurso que misturava as várias vertentes do trail e acima de tudo, uma festa enorme desta modalidade que movimenta uma população ao longo de um fim de semana, muitos parabéns a todos!

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