11ª Paragem: Não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera!

IX Trail do Almonda

Distância: 30.78kms
Tempo: 02:38:59
Classificação Geral: 3º Classificado
Classificação Escalão: 2º SenM

O título do post não poderia estar mais adequado... Estes últimos tempos da Primavera têm sido praticamente perfeitos! Um trail em Abrantes onde apareceram as primeiras boas sensações, o trail na "minha" Estrela onde consegui andar a ritmos que não pensei serem possíveis e para culminar, tinha o Trail do Almonda, uma prova onde correria autenticamente em casa e onde teria que dar tudo por tudo para aproveitar este crescendo de forma!
A verdade é que a Serra D'Aire e Candeeiros já é mesmo a minha casa... A quantidade de horas que lá passei já é tanta que já dou por mim a evitá-la e procurar outras serras para não entrar em completa fadiga psicológica. O facto de estar a correr em casa trazia um benefício: já conhecia perfeitamente os trilhos por onde a prova ia passar, sabia onde as subidas puxavam mais, onde poderia abrir o passo, como deveria gerir a prova! Na realidade, todo este conhecimento trazia-me um sabor agridoce... É que a correr bem, poderia utilizar todos estes pontos a meu favor mas se por acaso a prova estivesse a correr mal, saberia que ainda teria que penar na subida seguinte, que teria uma descida complicada logo a seguir e tudo se tornaria mais negro. Restava aguardar que a prova corresse de feição e que todo o conhecimento que tenho da serra se virasse a meu favor!

A semana de treinos não tinha sido perfeita, falhei uma das sessões e o cansaço da Estrela era ainda muito percetível mas como havia a prova no domingo, não era nada que me deixasse muito preocupado! No sábado ainda fui dar uma ligeira ajuda na organização (obrigado a toda a equipa que me poupou dos esforços) e ao fim do dia, depois de receber o padrinho da prova, lá fui descansar. O domingo começou bastante tranquilo, preparei tudo aquilo que precisava e fiz a curta viagem até ao Pedrogão... Esta viagem fez muito bem, um caminho que já percorri dezenas ou provavelmente centenas de vezes fez com que relaxasse o suficiente para não estar demasiado tenso. À chegada vejo alguns amigos, desde pessoal de Barrancos, à Barreira e a São Mamede, vi muitas caras conhecidas e a nível pessoal, encheu-me o peito de orgulho saber que tinha ali tantos amigos que se tinham juntado a nós e ao Trail do Almonda. Permitam-me fazer um parêntesis na "narração" do dia da prova para fazer três agradecimentos especiais, ou melhor, só um mas a três pessoas: Muito, muito obrigado Ico Bossa, Sara Brito e Hugo Água! A vossa presença no Trail do Almonda foi um orgulho para nós! Deram um brilho único à prova, um brilho pessoal e do qual temos um orgulho enorme de conhecer... Esperamos que se tenham sentido em casa e que se tenham divertido tanto como nós!

Foto com o padrinho da prova e com os restantes barranquenhos! Que gosto tenho em ver-vos na minha terra! (Fonte: CaracolTV)
Retomando a manhã no Pedrogão... Cheguei com tempo mas com todas as conversas, os minutos iam passando e estava cada vez mais perto da hora da partida. Fui equipar e segui para a linha de partida! É nessa altura que apareceram dois dos momentos mais importantes da prova... As simples mas marcantes homenagens a duas pessoas que foram demasiado cedo! Foi com a Força da Antonieta e do Gameiro que percorremos todos aqueles trilhos e foi por eles que demos o nosso melhor! Homenagens feitas, contagem decrescente de 10 até 0 e iniciámos a nona edição do Trail do Almonda.

Momentos antes da partida com os restantes caracóis

Se o primeiro quilómetro era praticamente todo feito dentro da aldeia de Pedrogão, a partir daí a prova desenrolava-se toda na Serra D'Aire. Uma primeira subida ligeira e o Pedro Ribeiro acaba por assumir a frente da prova... Sigo juntamente com ele, com o Vitor Cordeiro e com o Pedro Rodrigues até ao final da segunda subida em estradão. Embora já estivéssemos os quatro isolados, o avanço era curto e vinha muita gente logo atrás de nós. No final do estradão, curva à esquerda e o primeiro single track a descer!

Momentos antes da primeira descida

Uma zona algo técnica que requeria muita atenção... Toda a nossa serra é "perigosa" devido à quantidade de pedra que tem e este era um dos trilhos que mais cuidado exigia! Os Pedros acabaram por seguir a um ritmo alucinante e eu e o Vitor metemos igualmente um ritmo muito forte mas acabámos por ficar ligeiramente para trás... O trilho tem cerca de 1km e depois seguíamos por uma zona mais fácil até à subida mais dura da prova! Esta subida tem cerca de 3kms com 600D+, uma subida que apesar de ser quase sempre constante, tem um desnível muito acentuado e torna a progressão muito complicada. Logo no início encostei à esquerda e o Vitor passou, conseguindo pouco depois colar-se ao duo da frente. Apesar de me sentir bem, sabia que aqueles ritmos eram demasiado fortes e optei por meter o ritmo mais constante que tinha e tentar fazer a diferença numa zona mais adiantada da prova. Apesar de não ter seguido no grupo da frente consegui andar sempre bem e quando olhava para trás não via ninguém... Foi assim até à zona da Pedreira onde vi o trio da frente ainda todo junto! Aí entramos no "Trilho do Gameiro" ou como é conhecido nas cartas da zona, o Vale Fojo... Este é sem dúvida o trilho mais difícil da nossa Serra! Muita pedra, zonas com inclinações superiores a 20%, alguns troços curtos de autêntica escalada. Estava com medo que pudesse quebrar nesta zona por ter feito um início demasiado forte mas também sabia que se passasse bem aqui, as probabilidades de fazer uma boa prova aumentavam exponencialmente. Meti um ritmo forte, as sensações continuavam boas e queria ver até onde ia o corpo. Já só muito perto do topo da subida é que senti necessidade de intervalar a corrida com troços muito pequenos a passo e quando estou mesmo a chegar às antenas, olho para o relógio e vejo a dimensão da prova que estava a fazer! O meu melhor tempo em treinos nesta fase é de cerca de 1h4' e desta vez cheguei lá em 55' e a sentir que o corpo estava a andar cada vez melhor...

Chegada às antenas, o ponto mais alto da Serra D'Aire em 55' (Fonte: José Dias)

Sigo direto para o Vale Alto, uma descida com muita pedra solta mas que permite meter bons ritmos se tivermos atenção a onde estamos a meter os pés! Tentei começar o mais forte possível sabendo que este era um dos pontos cruciais para as lesões... Foi já perto do final da descida que veio o maior alento: eu que normalmente faço troços de descida fracos, aproximei-me do Pedro Rodrigues e consegui ultrapassar ainda antes do fim da descida e tinha noção que isso se devia em grande parte a estar a descer muito melhor do que em tempos relativamente recentes. Chegamos à povoação que se chama efetivamente Vale Alto e entramos numa fase muito rápida com cerca de 3kms planos para meter ritmos altos e apesar de estar a andar abaixo dos 4'/km, o Pedro Rodrigues colou praticamente até ao abastecimento que se localizava a meio da fase rápida. O pequeno avanço que ganhei foi o suficiente para encher um flask e seguir viagem mesmo aquando da chegada do Pedro. Ouvi-o a parar também no abastecimento e arranquei tão forte quanto estava a andar antes e até ao início da subida deixei praticamente de ouvir barulho atrás de mim.

Antes do segundo abastecimento (Foto: Bué das Fotos)

Neste momento estava em 3º classificado, a iniciar a segunda subida mais dura da prova e não via ninguém à minha frente e apesar de saber que tinha alguém perto atrás, não o via também. Ao contrário da subida mais dura, esta é uma subida onde me dou muito bem! Tem muita pedra solta mas a inclinação é praticamente constante e permite manter sempre o mesmo ritmo. Começei com o pensamento de tentar ganhar espaço a quem vinha atrás mas a meio vejo o Pedro Ribeiro que seguia isolado no segundo lugar... Tento aumentar o ritmo mas a subida não permite grandes aventuras. Vou tentando gerir a prova e já mesmo no fim da subida, numa zona onde se vê 300mts à frente, vejo o Vitor Cordeiro a virar à esquerda, o Pedro Ribeiro 100mts atrás e eu com a mesma distância para ele! A prova estava completamente lançada, a frente ainda seguia muito junta e a partir dali a prova seria para quem conseguisse rolar melhor (1000mts D+ dos 1300 totais da prova já estavam feitos e faltavam ainda 14kms até ao final).

Final da segunda subida mais dura da prova

A zona seguinte então era das mais rolantes, dois quilómetros praticamente sem desnível onde apenas os primeiros 500mts eram algo técnicos... Passo essa fase com algum cuidado e quando chego à fase mais fácil, abro a passada ao máximo! Sabia que o Pedro era forte aqui mas tinha que tentar aproximar até à descida seguinte e tentar acompanhar o ritmo para depois seguirmos na "perseguição" ao Cordeiro. Estava a sentir-me mesmo bem, passo a zona dos Carvalhos e numa das passadas mais largas, o pé aterra mal e sinto imediatamente que algo não estava bem... A dor aguda não tinha sido tão extensa como em duas entorses anteriores mas senti que não estava bem! Faço os primeiros metros e sinto aquilo que estava a sentir desde o início da prova, a sapatilha direita estava pouco justa, precisava de ser apertada... Ainda faço o restante da fase menos técnica sem a apertar mas assim que cheguei a nova descida técnica, tive mesmo que parar e ajustar o aperto. Sabia que este minuto me poderia sair "caro" mas também sabia que se não o fizesse iria agravar a lesão. Parei e arranquei para a descida... Os primeiros metros foram algo penosos, o pé ainda se estava a ressentir mas depois da primeira centena de metros com o pé já ajustado à sapatilha, começou a permitir meter ritmos fortes outra vez! Cheguei ao terceiro abastecimento algo preocupado, ainda faltava muito da prova mas não me podia deixar afetar, tinha que conseguir no mínimo, manter aquela posição. 

Depois do terceiro abastecimento onde não parei, inicia-se logo a subida mais fácil das 4 mais difíceis... Algo inclinada mas curta, permitiu bons ritmos e rapidamente cheguei à penúltima descida da prova e voltei a sentir o efeito do pé. Numa descida onde daria facilmente para andar abaixo dos 4'/km estava a ser-me muito difícil manter esse mesmo ritmo. Ainda assim vou forçando ao máximo e chego à última subida ainda com algumas forças! Esta subida é completamente diferente das outras... Sempre constante e longa permite ritmos altos a quem tiver força e impõe ritmos baixos a quem já deu o berro (já me aconteceu várias vezes)! Tentei que me corresse da primeira forma e apesar de relativamente longe do meu melhor tempo por lá, ainda me deixou satisfeito por ter feito tudo a correr e a um ritmo razoável. Assim que chegamos ao último marco geodésico da prova, iniciamos a descida final... Uma zona inicial com muita pedra que culminava no quarto e último abastecimento e onde tentei poupar um pouco o pé, o quarto abastecimento e logo a seguir, a segunda parte da descida, o Vale Garcia.

Saída do quarto abastecimento com uma vista fantástica (Foto: Telmo Silva)

Olho para a esquerda e vejo um grupo de atletas a aproximarem-se... Tento abstrair-me das dores no pé e fazer a descida mais perfeita possível (agora que vejo no strava foi a minha melhor descida de sempre por lá, o que significa que posso fazer ainda melhor). Já perto do final da descida oiço alguém a aproximar-se e percebo que o João Fernandes da Zona Alta tinha conseguido colar, tendo mesmo passado para a frente na sua fase final... A partir daqui a prova tornava-se numa autêntica prova de velocidade durante dois quilómetros, num estradão que permite grandes ritmos! Assim que lá chego, agarro novamente o João e passo logo a um ritmo muito forte que tentei manter durante o maior período possível! Passados cerca de 200mts o ritmo estabiliza nos 3'30''/km e consigo manter até ao final desses dois quilómetros onde entramos no primeiro quilómetro da prova! Uma descida relativamente fácil e a entrada no alcatrão para os metros finais! Fui sempre controlando a distância para o João e sabia que estava relativamente à vontade para os metros finais e foi assim que consegui manter o terceiro lugar da geral na meta a 5' do primeiro classificado, o Vitor Cordeiro e a 2'15'' do Pedro Ribeiro!

Passagem na meta em 3º lugar da geral (Foto: CaracolTV)

Parti desde o início com o intuito de andar sempre no meu máximo esperando não rebentar... A prova foi melhorando a cada quilómetro, praticamente e mesmo com a ligeira "entorse", consegui sempre manter o foco na prova e acabar com ritmo muito fortes! Se me perguntassem no início da prova se ficaria satisfeito com estes resultados, diria imediatamente que sim e que ficaria com eles mas assim, fica aquele sabor de querer mais, de saber que o trabalho está a ser bem feito e que num futuro próximo, talvez as coisas se proporcionem de melhor maneira! Agora resta tratar desta lesão a 100% para continuar com os treinos e treinar cada vez mais e melhor!

Foto do pódio da classificação geral (Foto: Bué das Fotos)

Desta vez vou-me abster de comentários em relação à organização... Embora tenha sido atleta, fiz também parte da organização e todos os elogios que iria fazer, poderiam parecer mal! Fico-me só pelo obrigado a toda a equipa do Caracol Trail Team e ao Município de Torres Novas por terem organizado tamanha festa do Trail na nossa cidade! 

Comentários

  1. Dä--lhe caracol...versão supersónica (3,5 o km nessa distancia?...chiça...). Continua nessa senda...eu vou lendo as descriçoes da fadiga no conforto do sofá...

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    1. Cada vez mais as provas se disputam a essas velocidades... Já vou na segunda seguida 😉
      Muito obrigado pelo acompanhamento 😊
      Um abraço

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