3ª Paragem 2018: A magia dos trilhos e a adrenalina da competição!

Trilhos dos Reis/Delta Cafés

Distância: 47.6kms
Tempo: 05:22:42
Classificação Geral: 15º Classificado
Classificação Escalão: 8º SenM

Já tinha saudades disto! Desde os Açores que andava a treinar mas andavam-me a fazer falta as provas... Andava a fazer-me falta andar por trilhos onde raramente ando, com uma beleza de nos deixar sem palavras e a competir pela melhor classificação possível no Campeonato que a mim mais me diz, o Campeonato Nacional de Ultra Trail!
A época arrancou no início de Dezembro e desde aí que tudo vinha a correr bem! Inicialmente uma vitória numa prova de estrada, depois o RP aos 10kms e apesar de já sentir algum cansaço acumulado, ia conseguindo cumprir o plano de treinos. A semana que antecedeu a prova começou com a natural diminuição da carga e o corpo dava mostras de estar a recuperar. A meio da semana recebemos a notícia que nos afetou a todos, a Antonieta já não estava entre nós! Honestamente, não consegui treinar, estava demasiado desgastado psicologicamente para o fazer e fiz a minha pausa na quarta feira... Na quinta voltei aos treinos mas parecia que o corpo estava algo "preso". Tentei ir recuperando o corpo e quando cheguei no sábado da viagem até Vouzela, sentia-me naturalmente cansado mas com capacidade para fazer uma boa prova, ou pelo menos assim esperava.

O dia da prova arrancou cedo. Tal como nas duas edições anteriores saímos de Torres Novas ainda o sol estava longe de aparecer e seguimos em direção a Portalegre! A equipa ia com alguns elementos e tínhamos em mente que poderíamos fazer uma boa participação coletiva e foi com esse objetivo que nos começamos a preparar para a prova... Fomos levantar dorsais, equipar e prestámos homenagem à Maria Antonieta de Sá, que era suposto estar connosco em mais esta aventura! Vestimos uma camisola onde ela vestia a nossa camisola, a sorrir, como era seu costume e seguimos para o aquecimento.

Equipa juntamente com o Ico, na homenagem à Antonieta

A temperatura estava muito baixa, tentamos aquecer o maior tempo possível até porque não sabíamos se a prova ia sair muito rápida... Depois de duas voltas ao jardim, seguimos para o local da partida, retirámos as camisolas e fomos ouvir o briefing da prova pelos padrinhos e pelo organizador, José Presado. O briefing foi mais a nível de segurança, alertando com as marcações da prova e depois, ao som dos tambores, seguimos para o local da partida real da prova! Aí continuou o "show" da organização... Uma quantidade enorme de cliques ia-se ouvindo das inúmeras máquinas que estavam na partida, auxiliadas ainda pelo barulho do drone que sobrevoava os atletas, deixando antever uma presença massiva de fotógrafos ao longo do percurso para ir registando todas as nossas passagens! Agora que as fotos começam a ser lançadas, o difícil é escolher qual a que vou postar no blogue!

Foto na linha de partida real da prova, momentos antes da partida
Fotografias tiradas, um "mais cinco" ao Pedro Ribeiro e Pedro Ricardo para lhes desejar boa sorte (os que estavam mais próximos), ouvir a contagem de 10 até 0 e seguir para a primeira prova do Campeonato Nacional de Ultra Trail. O Luís Semedo assumiu a frente da corrida, o ritmo não ia exageradamente alto e seguia num grupo comigo, com o Pedro Ribeiro e com o Vitor Cordeiro... Foi assim que fizemos o primeiro quilómetro e meio de prova, com um ritmo acessível e que era seguido de perto por um número relativamente grande de atletas! Assim que a prova começou a subir com um maior desnível fiquei para trás... Não queria cometer os mesmo erros de outras provas, de tentar acompanhar o pessoal da frente e depois ficar completamente de rastos! Ia tentar fazer uma prova de trás para a frente e no fim logo se faziam as contas. De início o plano parecia muito bem e seguia a ver o grupo da frente mas a partir do momento em que saímos do alcatrão e entramos num estradão com ligeiro sobe e desce, acabo por sentir as pernas mais pesadas que o normal... Tentei manter o mesmo ritmo mas assim que apanhei nova subida mais inclinada tive mesmo que meter a passo porque as pernas não estavam a permitir correr! Até aqui a prova era igual a 2017 e tinha perfeita noção de alguns sítio por onde estávamos a passar e aquele não era de longe o sítio mais difícil da prova. Assim que saímos dessa subida e entramos numa zona populacional onde está sempre gente a ver (mais um ponto positivo para esta organização, consegue envolver a população para apoiar os atletas), volto a correr e a direito até estava a conseguir andar razoavelmente, pelo menos não estava a perder espaço para quem seguia imediatamente à minha frente.

Até aqui tenho perfeita noção de tudo o que foi decorrendo na prova, mas a partir daqui até cerca dos 15kms, perdi noção dos sítios onde ia passando e da ordem, ainda assim vou tentar retratar conforme tenho alguns "flashes"... A prova não estava a correr da melhor maneira, as canelas estavam a doer-me como nunca me tinha acontecido e o corpo não estava a reagir nada bem! Parecia que a saga "Em Portalegre é escusado, nunca corre bem" estava de volta. É aqui que também sou apanhado pelo Telmo Veloso e tento seguir com ele, lembro-me da nossa passagem no primeiro abastecimento e de termos trocado algumas palavras... De comentarmos que às vezes as dores nas canelas vêm de ter as sapatilhas demasiado apertadas e no fim da prova pensei no assunto e parece-me que era mesmo a situação! À medida que ia avançando na prova, a sapatilha ficava mais larga e a dor foi passando... Além disso, nos dias que se seguiram as dores nunca mais se mostraram. Obrigado pela dica! De qualquer maneira a seguir ao abastecimento tínhamos o "ataque ao castelo" tal como a organização lhe chamou e neste trilho consigo perder três lugares! Não conseguia render a subir e mesmo tentando forçar a corrida, ia ficando cada vez mais para trás... Demorei cerca de 12' para percorrer 1600mts com 170mts de D+! No final desta subida iniciávamos uma descida algo longa, num estradão e volto a tentar não perder tempo, mas nesta altura era completamente escusado! A descer ainda conseguia qualquer coisa, insuficiente para fazer qualquer diferença, mas a subir era ainda pior. De seguida temos mais uma ligeira elevação e damos de caras com a primeira grande parede da prova... Aos 11kms de prova apanhamos uma senhora parede! Em 400mts subimos 110mts, o que dá a módica quantia de 27.5% de inclinação. Aqui voltei a ver os atletas que tinham acabado de me passar e vejo também alguns atletas que vinham na perseguição... Após este enorme empeno, a subida continuava! Menos inclinada mas num trilho sinuoso. No topo, pessoal que estava ao longo de todo o percurso, a caracterizar algumas personagens! Da minha parte ainda ia interagindo com eles e eles iam entrando nas brincadeiras, um dos elementos até me fez uma perseguição quando lhe disse que já o tinha visto antes... Mais uma ótima ideia da organização, sempre dava para distrair da dor de pernas que ia imperando!

Após uma das subidas complicadas

Depois deste empeno, mais uma "pequena" descida, mal deu para desentorpecer as pernas e arrancamos logo para o ponto mais alto da prova... Uma subida longa, com cerca de 10% de inclinação onde no topo quase chegamos às antenas! Este foi para mim o ponto de viragem... É a partir daqui que me começo a sentir que tenho força, é aqui que volto a ter vontade de correr a subir, é aqui que tento fazer desta prova, qualquer coisa que se pareça com competição. Com a recuperação das boas sensações, vêm também as memórias:

Como estava a dizer, quando estamos quase a chegar às Antenas, fletimos à direita para entrar no Trilho da Rainha (Analice), um trilho técnico, dos mais técnicos do percurso mas que também acaba por passar rápido! Assim que o terminamos, passamos a estrada e entramos numa zona florestal onde fazemos muitos S's até chegar à descida final, bastante inclinada, que nos leva até ao abastecimento onde somos recebidos ao som dos tambores! Incrivelmente foi mesmo nesta fase que percebi que estava melhor, a descer as pernas estavam a soltar-se e consegui não perder nenhum lugar na fase mais técnica. Chegamos ao abastecimento, troco de flasks com o meu pai e sigo imediatamente, se me estava a sentir melhor tinha que urgentemente chegar-me à frente e tentar recuperar o tempo perdido... Digo ao meu pai que não estou muito bem mas que ia dar o melhor! Sigo um trilho que vai sempre ao lado da estrada de asfalto e que vai subindo aos poucos.

Passagem após o segundo abastecimento
Tento manter uma velocidade que impeça o atleta que vinha comigo durante a descida de voltar a colar e quando olho para trás numa curva de 90º à esquerda, não vem mesmo ninguém por perto. Fazemos a subida após esse corte à esquerda e entramos num trilho onde teríamos que virar imediatamente à direita... Digo teríamos porque passados cerca de 100mts vejo o Telmo Veloso a voltar para trás! Percebo que aquele não é o caminho e quando olho para a direita vejo fitas num trilho que se desenvolvia para cima, por onde devia ter ido. Arranco logo em direção a essa fita e volto a estar no percurso da prova (fiz cerca de 150mts a mais, pelo que vi do Suunto). O Telmo apanha-me logo e junto com ele vem outro atleta... Ainda sigo com eles um bocado mas o ritmo estava demasiado alto para aquelas bandas e o meu sentir-me bem ainda não me permitia tais aventuras. Assim que acabamos a subida entramos num trilho bastante fácil, sempre a descer onde reencontro a Bernardete. Tento fazer a pose do costume mas o cansaço não me permitiu tirar mais de meia língua da boca, ficou como está na foto abaixo.

Passagem pela Bernardete
Seguimos o trilho, apanho a Filipa Alexandra Vilar pelo meio do caminho e digo-lhe que a coisa não está muito famosa... Lembro-me da resposta como se estivesse neste momento a passar por ela: "Foca-te nas coisas boas e não nas negativas"! Parece que não mas faz toda a diferença e a verdade é que eu não estava só a conseguir recuperar como até me parecia sentir bem para aquilo que já tínhamos feito! Chego rapidamente ao terceiro abastecimento que se encontra ao km 25. Volto a trocar de flask e sigo imediatamente o meu caminho... O meu pai diz que estou em 16º e assim que saio do abastecimento tenho um atleta logo à minha frente! Logo na segunda subida curta após o abastecimento passo e sigo caminho sozinho. A saída deste abastecimento era feita por um trilho bastante técnico, lembro-me de no ano anterior ter passado muito mal nesta fase! Consegui não voltar a ser apanhado e entramos num Trilho que se chamava qualquer coisa do género "Assalto às muralhas". O trilho era bastante desnivelado e a sua transposição tinha que ser feita com recurso à técnica de escalda dos 3 apoios (têm que estar sempre 3 membros em contacto com a parede quando o 4º se está a deslocar). Pelo menos foi assim que fui transpondo e estava a ficar satisfeito de olhar para baixo e não ver ninguém a aproximar-se. Após algumas "ascenções" viramos à direita numa linha de água e continuamos a subir, num trilho mais fácil a nível de transposição mas que tinha mais vegetação. Quando terminamos esse trilho, iniciamos nova fase de descida e aí sim chegamos ao trilho mais difícil da prova! Já não me lembrava de fazer uma subida destas há algum tempo, provavelmente desde o quilómetro vertical percorrido durante o Grande Trail Serra D'Arga. A primeira sensação que dava era que tínhamos uma subida dura mas curta, porque só se via a fase inicial... O problema é que assim que chegámos à fase final dessa subida, conseguimos ver o que falta e é nada mais nada menos do que o dobro da distância que já percorremos mas mais inclinado! Ao todo a subida tinha 1.3kms com 270mts de desnível, ou seja, 21% de inclinação para uma distância bastante longa... Todas as boas sensações que estava a ter até ali, começaram a ser postas em causa por mim próprio! Se a coisa estivesse presa por arames, podia ser ali o fim das minhas aspirações... Para piorar o cenário, quando olhava para a frente via os 3 atletas que perfaziam do 12º ao 14º classificado, mas se olhasse para trás via do 16º até ao 19º! E a verdade é que com esta preocupação de gerir a subida para não dar o berro final, o 16º aproximou-se muito mais de mim do que eu do 14º. À chegada ao topo, tinha o Miguel Vitorino a dizer-me para correr e digo-lhe por brincadeira que aquele "gajo" não me deixava... O gajo era mais um dos figurantes que interpretei como a Morte, e eu estava a ver se fugia dela!




Assim que terminou a subida, tento imprimir um ritmo forte! Ou melhor, tento imprimir o ritmo mais forte que conseguia porque depois de uma subida daquelas, não havia grandes ritmos a meter... A verdade é que a aceleração resultou, consegui não ser acompanhado por quem vinha atrás e encontro o meu pai no 4º abastecimento sem ninguém por perto! Trocamos algumas palavras, digo-lhe que o Presado disse no briefingue que maior parte do desnível da prova estava feito (2000 dos 2500) e que o relógio comprovava isso (na verdade só disse que maior parte do D+ estava feito, mas ele percebeu o que eu pensei), que ia tentar acabar bem para não perder mais lugares!

Sigo a bom ritmo... Mesmo após o abastecimento o estradão continuava a subir ligeiramente mas eu continuava a correr! Não via ninguém a aproximar-se e nos trilhos que se seguiram, quer fosse a subir quer fosse a descer, conseguia fazer grande parte a correr! O corpo apesar de cansado dava mostras de aguentar o que faltava da prova e queria mesmo garantir o lugar... Os lugares de equipas continuavam em aberto e esse era o foco! Já na parte final antes do último abastecimento entramos numa zona da prova que é já uma característica da mesma, o Carrossel! Inicialmente apenas uma zona em que cruzávamos a linha de água várias vezes e que por isso mesmo andava sempre para cima e para baixo como um carrossel mas que de meio para a frente entrava numa zona só de rocha molhada e lama onde a maior preocupação era não me aleijar. Ao mesmo tempo queria ter uma progressão minimamente rápida para tentar que se alguém se aproximasse (o que seria algo provável), não me ganhasse grande avanço até ao final do trilho. Quando cheguei ao final e vi que não tinha ninguém por perto foi um alívio e pensei que se ninguém tinha chegado até ali, tinha que manter essa situação até ao fim! Foi com este pensamento que cheguei ao último abastecimento onde mais uma vez tinha toda a minha equipa à espera!

Ainda não consegui perceber onde é esta foto, mas como gostei muito dela, fica por aqui 

Foi o abastecimento onde perdi mais tempo... Provavelmente perdi menos de um minuto mas assim que tive tudo pronto voltei a arrancar sem ter visto ninguém chegar! Assim que saio do abastecimento entramos por uma estrada de alcatrão que tem um subida inclinada até entrarmos novamente nos trilhos... Quando estou a chegar à fase final do alcatrão a senhora que nos está a indicar o caminho para o trilho diz-me que já lá vem outro atleta atrás! Acabo por me certificar antes da curva se vinha lá alguém e vinha mesmo! Um companheiro com quem já me tinha cruzado no EGT, o Miguel Frutuoso e Melo e percebo que afinal de contas, mesmo tendo-me safado na zona do carrossel, tenho mesmo que ir ao limite para preservar este lugar. Arranco novamente a correr e contínuo a fazer as subidas a correr! É aqui que entramos numa zona que me favorece se estiver em condições... É que uma zona plana, quando estamos com força, faz-se a ritmos a rondar os 4'20''/km, mas se estivermos de rastos, nem os 5'30/km conseguimos garantir! Mas a verdade é que foi tudo saindo conforme queria e em algumas zonas dos trilhos estava mesmo na zona dos 4'/km. A esperança de manter a classificação ia crescendo, ia ganhando motivação com os atletas da prova pequena que ia passando e rapidamente cheguei ao asfalto que tinha pisado cerca de 5h antes, logo no início da prova! Fazemos parte da subida e entramos à esquerda para um trilho que vai dar diretamente dentro de Portalegre (esta é a parte que menos gosto do percurso, mesmo já depois de estar a ver a cidade andamos num sobe e desce no sentido longitudinal à partida para, já dentro da cidade, voltarmos para o sentido em que vínhamos). Quando cheguei à reta da linha de meta, recebo a camisola da Antonieta para a envergar aquando da minha passagem pela linha da meta! Amiga, onde quer que estejas, tudo o que se passou naquele dia, foi sempre com o pensamento em ti! 

O Pedro tinha acabado de chegar, o Hugo chegou pouco depois de mim e agora era altura de fazer contas... No final, o terceiro lugar coletivo e o objetivo conluído de subir ao pódio e podermos homenagear a "nossa Caracoleta" envergando a camisola dela! Estarás sempre connosco!

Pódio coletivo dos Ultra Trilhos dos Reis
A nível pessoal a prova esteve longe de ser perfeita mas deixou alguns pontos positivos... Em primeiro lugar aquela magia dos trilhos! Passámos por zonas do mais bonito que temos no nosso país! Lembro-me de ir na tal primeira subida dos 27%, olhar para a esquerda e ver um monte coberto de neve, provavelmente em Espanha, lembro-me de correr ao lado do rio, de olhar para o lado e ver paisagens muito, muito bonitas! Depois a parte competitiva que tanta falta faz... É bom saber em que patamar estamos e o quanto temos que trabalhar para conseguir atingir os nossos objetivos! Por fim, e uma parte que está diretamente relacionada com o segundo ponto, aqueles 30kms finais desenrolaram-se de forma bastante positiva e voltei a ter boas sensações quer a subir, quer a descer, o que espero que seja um bom indicador para o que está para vir.

A nível da organização, uma palavra: Perfeito! Todo o ambiente antes, durante e após a prova esteve simplesmente soberbo! Antes de mais, o briefing e a homenagem à Antonieta, muito obrigado! Depois, a envolvência na partida quer dos atletas das outras provas quer da própria população de Portalegre que lá estavam só para bater palmas, ótimo! Depois a preparação de cada trilho... Todas as placas, os figurantes, a colocação dos próprios abastecimentos e das pessoas a indicar o caminho, tudo impecável! O cuidado com pormenores como as fotografias e abastecimentos com GoldNutrition, a pensar nos atletas! E por fim, a cerimónia de entrega de prémios onde os grandes vencedores saíam com o porta bagagens cheio, o final perfeito! Muito obrigado José Presado e restante equipa, estão novamente de parabéns! 

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